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Disparada verde

O dólar tem conseguido forte valorização no último mês e há um bocado de explicações para isso, especialmente no Brasil

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2018 | 21h00

Depois de ano e meio de relativa estabilidade, as cotações do dólar dispararam no câmbio interno. Nesta quarta-feira, chegaram a R$ 3,5161, mas fecharam o dia a R$ 3,4861, sugerindo que tinham ido longe demais.

O mercado financeiro, que sempre tem explicações para fatos já acontecidos, desta vez patina sobre hipóteses.

A primeira delas tem a ver com a valorização do dólar no mercado internacional diante da expectativa de que o Federal Reserve, Fed, o banco central dos Estados Unidos, seja obrigado a puxar pelos juros mais do que o esperado. Há nítida valorização do dólar ante as principais moedas, mas isso não explica por que o real se desvalorizou substancialmente mais do que as moedas de alguns países em desenvolvimento.

Outras explicações têm mais a ver com o que acontece por aqui. Há o insistentemente lembrado risco eleitoral. Ninguém sabe quem será o novo inquilino do Palácio do Planalto a partir de 2019 nem como será administrada, a partir daí, a política econômica. Mas, se fosse por aí, outros indicadores refletiriam essas incertezas: a Bolsa teria mergulhado e os títulos do Tesouro do Brasil teriam acusado rejeição proporcional, o que não aconteceu.

O comportamento dos juros internos e eventual reversão do jogo de arbitragem é outra fonte de explicação. Trocando em miúdos: quando a diferença entre juros internos e externos é muito alta, o mercado financeiro tende a tirar proveito. Levanta dólares por empréstimo no mercado internacional a juros baixos, troca os dólares por reais e aplica o resultado no mercado financeiro interno para ganhar com juros. Quanto mais altos os juros internos em relação aos externos, mais atraente a operação é. A principal consequência é a entrada mais forte de dólares e, portanto, a queda das cotações do câmbio por aumento da oferta.

A novidade é que os juros básicos internos estavam a 10,25% ao ano há nove meses e, agora, estão a 6,5% ao ano, enquanto os juros externos, antes perto de 1,0%, agora oscilam ao redor dos 2,0%. Ou seja, as operações de arbitragem com juros perderam muito da sua atratividade. E, nessas condições, a parcela de dólares que vinham desembarcando no Brasil para ganhar com juros teria diminuído ou, mesmo, passado por certa reversão. Mas por que só agora?

O principal impacto a ser produzido por uma alta prolongada da cotação do dólar seria o aumento da inflação, pelo encarecimento dos produtos importados. Por isso, poderia chegar o momento em que o Banco Central poderia intervir no mercado e despejar parte de sua enorme munição em reservas (US$ 380 bilhões). Por enquanto, não há indício de que esteja disposto a isso.

Mas há outros fatores que atuam contra a aposta na forte alta do dólar. Há, por exemplo, a nova safra de alta das commodities que deverá aumentar as receitas em dólares das exportações. E, para quem esteja alarmado com as incertezas eleitorais, continua a impressão de que o novo presidente, seja quem for, não deverá conduzir uma política econômica tão errática e temerária quanto a do primeiro período Dilma.

Como as coisas ainda não estão claras, não há lugar para apostas firmes em qualquer tendência. 

CONFIRA

» Vai aumentar

O gráfico mostra como o déficit em Transações Correntes vem diminuindo, resultado do excelente desempenho das exportações e do enfraquecimento das importações por todo o período de recessão. Essa conta reflete entrada e saída de moeda estrangeira, menos fluxo de capitais. Mas, para 2018, a expectativa é de que o déficit aumente em consequência da melhora da atividade econômica e, portanto, do aumento das importações. O Banco Central prevê rombo de US$ 23,3 bilhões. E o mercado, de US$ 25,15 bilhões.

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