Disputa argentina tem lobby de ambos os lados

Enquanto nos tribunais a disputa é aberta, é travada nos bastidores uma batalha de consultores poderosos da Argentina e de Washington

MARIANA, MARCALETTI, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2014 | 02h03

Por trás da disputa nos tribunais que deixou a Argentina inadimplente, está um dispendioso lobby internacional com o objetivo de conquistar os corações, as mentes e os votos dos que poderão influenciar o resultado do conflito que o governo argentino trava há dez anos contra um poderoso grupo de fundos hedge.

A guerra intensificou-se nas últimas semanas, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos não quis considerar a possibilidade de derrubar a sentença de um tribunal inferior que exigia que a Argentina pagasse os detentores de títulos que se recusaram a aceitar a proposta de reestruturação da dívida do país, depois do calote argentino de 2001.

Esses holdouts (como são chamados), na maior parte fundos especulativos americanos, representam apenas 7% dos detentores de títulos da Argentina, mas a briga deprimiu os argentinos e um exército de advogados regiamente pagos, provocando guerras no Twitter e pedidos de ajuda internacional.

Enquanto as disputas nos tribunais têm sido abertas, uma outra parte da batalha é travada nos bastidores por lobistas e consultores poderosos em missões privadas de Buenos Aires e Washington. Ambas as partes tentam não apenas chegar aos funcionários do governo que poderiam usar sua influência no caso, mas também influir nos sentimentos do público.

Recentemente, os duelos se traduziram em anúncios de página inteira nos principais jornais do globo e uma enxurrada de anúncios postados nos sites da internet.

"Eles (os fundos) adquiriram os títulos em calote a preços obscenamente baixos com o propósito exclusivo de brigar com a Argentina e obter lucros enormes", diz um anúncio de página inteira encomendado pelo governo argentino que ataca os fundos, tachados de "abutres" pelas autoridades argentinas e por seus aliados.

Como a Suprema Corte se recusou a considerar o assunto, estão sendo publicados sem interrupção anúncios em publicações como The Washington Post, The New York Times, The Wall Street Journal e outros jornais de maior projeção do globo.

Esses anúncios foram respondidos por material equivalente de página inteira da American Task Force Argentina (ATFA), grupo sem fins lucrativos, em parte financiado pelos fundos hedge que contestaram judicialmente a Argentina. Um anúncio colocado num importante jornal há algumas semanas dizia: "Argentina, o calote é uma escolha sua. Está na hora de negociar".

No ano passado, o grupo publicou comentários mordazes sobre a Argentina. "Está na hora de a Argentina obedecer às leis americanas e parar de desrespeitar os tribunais americanos", dizia um deles. Outro anúncio de 2013 criticava energicamente a Argentina por ter "aliados vergonhosos", como o Irã. A ATFA, a embaixada da Argentina e a Elliott Management, fundo especulativo que processou a Argentina por causa do pagamento da dívida, não quiseram comentar o caso.

É impossível saber quanto cada uma das partes gastou nessas campanhas. Mas anúncios de jornal de página inteira como esses podem custar de US$ 80 mil a várias centenas de milhares de dólares cada um, segundo consultores de publicidade e executivos do setor de mídia. Dezenas deles foram publicados nas últimas semanas.

A ATFA também atacou lobistas de grande prestígio. Este mês, os porta-vozes da ATFA Nancy Soderberg, funcionária de alto escalão durante a presidência de Bill Clinton, e assessora de política externa do ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, e Robert Shapiro, subsecretário do Comércio para assuntos econômicos no governo Clinton e assessor econômico de Al Gore e John Kerry, em suas campanhas, viajaram para Buenos Aires com a finalidade de "se munirem de informações contra o calote, destacando os equívocos" do lado argentino.

De sua parte, o governo argentino demonstrou que pode usar meios não convencionais para espalhar sua mensagem em Washington. Em junho, por exemplo, o governo hospedou um seminário sobre a disputa da dívida numa sala de audiências no Centro de Visitantes do Capitólio.

Semanas antes da sentença emitida por um tribunal em 2012, relativa ao caso, funcionários do governo argentino tiveram a oportunidade de tentar convencer seus colegas americanos, reunindo-se com advogados democratas e republicanos e representantes dos partidos em Washington.

Os visitantes argentinos percorreram a Casa Branca e o Capitólio e, durante uma visita à Suprema Corte, conheceram a presidente da instituição, Sonia Sotomayor. Ela não deu muita atenção a uma pergunta sobre a disputa em curso, segundo Eduardo Antonio Diez, diretor executivo de uma fundação argentina, e vários outros presentes que pediram para não ser mencionados.

Mais ou menos na mesma hora, em Buenos Aires, 25 membros do Congresso americano reuniram-se com políticos do governo e da oposição. As reuniões incluíram conversações com os principais parlamentares argentinos e oficiais do gabinete, e os americanos foram apresentados à presidente.

O lobby de alto nível da Argentina prossegue. Desde a decisão da Suprema Corte, em julho, a presidente Cristina Kirchner viajou para Venezuela e Brasil buscando apoio. Além disso, procurou apoio em seu país. Seu gabinete produziu um vídeo. transmitido pela TV argentina, que mostra porta-vozes do Brasil, Uruguai, Peru, México, Paraguai, Honduras, Colômbia e Bolívia respaldando a posição do governo.

Não se sabe se cada uma das partes conseguiu mudar o modo de pensar a respeito do caso. Na Argentina, funcionários negam que o país esteja inadimplente, embora a Standard & Poor's tenha declarado um "calote técnico" na semana passada.

"Alguns afirmam que o nosso mundo está caindo", disse Cristina na segunda-feira, "mas continuaremos trabalhando. Se cometemos erros, é porque trabalhamos ... Temos de aceitar os sacrifícios, como sempre fizemos em tempos difíceis". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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