Disputa de poder pode ter originado denúncia de cartel

Briga pelo comando da fabricante de compressores Tecumseh teria dado início à investigação

Patrícia Cançado, O Estadao de S.Paulo

20 de fevereiro de 2009 | 00h00

A denúncia que desbaratou o cartel de compressores para refrigeração supostamente montado por seis multinacionais teria sido feita pelo presidente mundial da americana Tecumseh, Edwin Buker. A delação foi feita ao mesmo tempo nos Estados Unidos, onde fica a sede da empresa, e em São Carlos, onde estão as fábricas da subsidiária brasileira da companhia. A empresa, cujo nome está sendo mantido em sigilo, assinou um termo de leniência, que diz que o primeiro empresário a denunciar o cartel fica isento ou tem diminuída a punição administrativa e legal, mesmo que tenha participado do esquema, em troca de colaboração. O que teria levado Buker a tomar essa atitude foi uma disputa de poder entre a atual e a antiga gestão. No cargo desde agosto de 2007, o executivo tenta evitar que a família Harrick, fundadora da Tecumseh, volte ao comando da companhia. A briga foi parar na Justiça americana. Os Harrick moveram ações contra a Tecumseh e três dos seus diretores, incluindo Buker. A última decisão, de dezembro do ano passado, era favorável à família. Em janeiro, a Tecumseh apelou à corte de Michigan para reverter a sentença. Até aqui, Buker continua à frente do negócio, que emprega 10,3 mil funcionários, fatura mais de US$ 1 bilhão e vende para 120 países. Ao delatar o esquema, que teria ocorrido na antiga administração, Buker criaria um embaraço para a família. Além disso, a empresa ficaria isenta ou teria suas punições reduzidas.Procurado, o presidente atual da Tecumseh do Brasil, Dagoberto Darezzo, não confirma nem desmente as informações. "Acho pouco provável que seja em função dessa disputa. Pode ser uma questão de princípios. De repente foi alguém que resolveu cumprir os códigos de ética de sua empresa", disse. "A Tecumseh foi notificada e está colaborando globalmente com as investigações. Se partiu do Ed, eu não sei. Sei que partiu de alguma empresa." Darezzo assumiu a presidência no ano passado. Segundo ele, seu antecessor, Gerson Veríssimo, se aposentou. A casa do ex-executivo foi revistada, mas a sede da companhia no Brasil, não, o que reforça as evidências de que a delação partiu da Tecumseh. DÍVIDAOs Harrick perderam o poder depois de passar anos assumindo dívidas que financiaram um ambicioso projeto de expansão da companhia. Para comprar empresas, venderam ações, mas ficaram com aquelas que davam mais direito a voto. Uma das cláusulas desses empréstimos, no entanto, dizia que, se o nível do endividamento ficasse desproporcional ao fluxo de caixa, eles perderiam essas ações e cederiam o poder até que a situação se normalizasse. Foi o que acabou acontecendo. Os Harrick foram afastados da Tecumseh e Buker entrou na companhia em 2007, com a missão de eliminar as dívidas e vender todos os ativos e empresas que não tivessem a ver com o negócio principal, a fabricação de compressores. O último balanço financeiro publicado pela companhia, relativo ao ano de 2007, já revela parte do trabalho iniciado por Buker. O prejuízo aumentou, mas as dívidas de longo prazo da Tecumseh caíram de US$ 217 milhões para US$ 3,3 milhões. Naquele ano, não foram distribuídos dividendos para os acionistas e vários ativos e empresas foram vendidos no mundo. "Buker fez uma limpeza na companhia", diz o presidente da subsidiária brasileira, que é responsável por quase metade do faturamento mundial.O negócio de compressores não é dos mais lucrativos. No Brasil, a Tecumseh começou a enfrentar dificuldades a partir de 2004 por causa da valorização do real e do aumento dos preços das matérias-primas. O último balanço diz que a valorização do real - de 24,3% entre 1º de janeiro de 2006 e 31 de dezembro de 2007 - foi "especialmente adversa" para os resultados globais da companhia. Na semana passada, a empresa, maior empregadora de São Carlos, demitiu 350 funcionários. OPERAÇÃO Ação: Na terça-feira, policiais do Brasil, Estados Unidos, Itália e Dinamarca realizaram buscas em empresas suspeitas de formação de cartel mundial na fabricação de compressores de refrigeração. No Brasil, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão em São Paulo, São Carlos (SP) e Joinville (SC) Suspeitos: Segundo as autoridades, o cartel foi supostamente montado pelas empresas Whirlpool S.A, Tecumseh do Brasil, Elgin S.A., ACC, Danfoss e Matsushita/Panasonic Executivos: A operação também teve como alvos executivos que teriam participado de reuniões e trocado correspondência para combinar preço e dividir o mercado. Entre eles, Paulo Periquito, da Whirlpool, e Gerson Veríssimo, ex-presidente da Tecumseh do Brasil Prejuízo: O cartel teria causado prejuízo de R$ 700 milhões para a economia brasileira

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