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Disputa familiar na L'Oréal

Liliane Bettencourt (88 anos) é a mulher mais rica da Europa.

GILLES LAPOUGE, CORRESPONDENTE EM PARIS, GILLES LAPOUGE, CORRESPONDENTE EM PARIS, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2011 | 03h05

Acionista principal da maior companhia de cosméticos do mundo, a L'Oréal, sua fortuna é avaliada em 20 bilhões.

Uma sentença emitida na segunda-feira colocou essa pessoa poderosa sob tutela, a pedido da filha, Françoise Bettencourt-Meyers.

A Justiça francesa estabeleceu uma dupla tutela: os negócios financeiros de Liliane serão entregues à filha, Françoise Bettencourt-Meyers e a seus dois netos, Nicolas e Jean-Victor.

Um dos dois netos, Jean-Victor, foi encarregado de cuidar dos assuntos pessoais de Liliane.

Trata-se de mais uma daquelas devastadoras disputas familiares nas quais as paixões travam lutas de morte: de um lado, os ódios no seio das famílias, os ódios mais selvagens, como eternizaram Shakespeare, Sófocles, Ésquilo e Sigmund Freud em suas obras.

E, do outro lado, as batalhas em torno dos bens, em torno dos cofres, como na novela americana Dallas. No caso da família Bettencourt, o esquema clássico foi respeitado e levado a um grau de violência e de pureza que o transformou num verdadeiro diamante. Um diamante negro.

Liliane Bettencourt foi uma mulher linda e brilhante na juventude.

Representante da alta sociedade francesa, culta, mulher de negócios notável, conhecia muitas pessoas e sua infinita fortuna lhe procurou muitos amigos, pois Madame Bettencourt tinha um coração generoso e de bom grado ela recorria aos seus cofres para agradar aos amigos.

Duas espécies de amigos: os políticos, sempre de direita. Seu pai, o criador da L'Oréal, foi colaboracionista durante a guerra, e seu marido, André Bettencourt, foi um deputado de direita. Liliane costumava enviar aos políticos uns envelopes para financiar suas campanhas eleitorais. Há um ou dois anos foi acusada de ter remetido quantias consideráveis de dinheiro a vários políticos de primeira grandeza, incluindo Nicolas Sarkozy, embora não exista uma prova irrefutável disso.

Liliane gostava também dos artistas, dos poetas. Era muito amiga de um fotógrafo, belo como Oscar Wilde, espiritual como Oscar Wilde e homossexual como ele, François-Marie Banier, que a fazia rir e vibrar.

No espaço de alguns anos, ela teria transferido para esse personagem 1 bilhão, e como "agrado", a Ilha de Aros, nas Seychelles, no Oceano Índico, que vale 1 bilhão.

Foi esta a origem dos conflitos com a filha Françoise Bettencourt-Meyers, que não suportava ver esse enxame de abelhas ao redor da L'Oréal.

O ódio entre as duas mulheres foi crescendo, com alguns altos e baixos, brigas feias, reconciliações ternas e novamente ódios mortais.

Hoje, depois de várias tentativas frustradas, a filha conseguiu colocar a mãe sob tutela. De que maneira? Graças a um frio boletim médico, segundo o qual Liliane sofre de "demência mista, de dupla etiologia, degenerativa do tipo Alzheimer e vascular".

No boletim, consta o seguinte: os médicos perguntaram a Liliane onde ela estava, o dia da semana e a sua idade. Ela não teria conseguido responder a nenhuma das perguntas. Teriam dado também três palavras para ela memorizar: tulipa, poltrona, pato. Ela as repetiu e em seguida as esqueceu.

A escolha das pessoas encarregadas de exercer a tutela é estranha: para a tutela dos negócios, a filha, Françoise Bettencourt-Meyers, terrivelmente inteligente, extremamente culta, mas seca, dura e austera, tanto quanto sua mãe era doce, sedutora e extravagante.

Portanto, essa primeira tutela é a do "ódio". A segunda, a que diz respeito à própria Liliane, será exercida por um dos filhos de Françoise Bettencourt-Meyers, Jean-Victor, o neto preferido de Liliane, a tutela da "ternura".

Lembramos apenas os aspectos superficiais dessa guerra, mas em torno de uma fortuna como essa, e de uma companhia como a L'Oréal, costuma gravitar todo tipo de gente ciumenta, gananciosa, predatória mesmo.

Apenas um exemplo: depois de muito tempo, a gigante suíça Nestlé conseguiu entrar no capital da L'Oréal. Hoje, a acionista principal é a família Bettencourt, com 30,9% das ações. A Nestlé detém 29,7%.

Bastaria que Françoise Bettencourt-Meyers cedesse algumas partes à Nestlé, que tem o direito de preferência sobre as ações dos Bettencourt, para que a joia da L'Oréal passasse para a Nestlé. Por isso, François Bettencourt-Meyers se preocupou em reiterar, por meio de um comunicado, "o profundo apego de toda a família Bettencourt à L'Oréal e seu desejo de acompanhar o desenvolvimento de L'Oréal no futuro".

As promessas de Frençoise Bettencourt-Meyers acalmaram as paixões. Na segunda-feira, as ações da L'Oréal tiveram uma valorização de 1,2%, enquanto o restante da Bolsa parisiense apresentou queda de 1,61%.

Portanto, hoje, embora as nuvens familiares ainda não tenham se dissipado totalmente, as perspectivas financeiras da companhia são resplandecentes.

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