Disputa frustrou acordo do bloco com o Canadá

Os anos de disputa na Organização Mundial de Comércio (OMC) desgastaram as relações entre Brasil e Canadá e deixaram uma impressão negativa na comunidade internacional. Segundo telegramas da diplomacia americana, divulgados pelo WikiLeaks, os ataques da Bombardier à Embraer "eventualmente impediram (e alguns dizem que até mataram) os planos do Canadá de concluir um acordo de livre comércio com o Mercosul".

Jamil Chade e Raquel Landim, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2011 | 00h00

Os dois países tinham uma intensa relação comercial naquela época. Cerca de 350 empresários canadenses chegaram a acompanhar uma visita do ex-primeiro ministro canadense Jean Chrétien ao Brasil em 1998.

Depois de muitas idas e vindas, Mercosul e Canadá fecharam um tímido acordo de cooperação comercial. Os planos para um amplo acordo de livre comércio, no entanto, nunca saíram do papel, apesar dos apelos dos demais países do bloco do Cone Sul, como a Argentina.

O ex-presidente argentino, Carlos Menem, prometeu publicamente na ocasião que faria todos os esforços necessários para a assinatura do acordo e chegou a pedir ao Brasil e ao Canadá que solucionassem suas diferenças.

Em outro telegrama, a diplomacia dos EUA relata como a disputa de Bombardier e Embraer contaminou a aproximação que poderia ocorrer entre o Brasil e o Canadá no projeto para estabelecimento da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).

Segundo fontes diplomáticas ligadas à disputa, o governo brasileiro "vestiu a camisa" da Embraer porque a empresa representava a capacidade do Brasil de vender produtos de alto valor agregado em vez de apenas commodities.

O então presidente Fernando Henrique Cardoso e seu chanceler Luiz Felipe Lampreia também assumiram uma postura de defesa ativa da indústria nacional e transformaram o caso em uma bandeira. Na época, a defesa da Embraer conquistou a simpatia da opinião pública.

Do lado canadense, os documentos da Embaixada dos EUA revelam a percepção das conexões entre Bombardier e o governo canadense. Segundo um telegrama de 4 de abril de 2005, "as conexões política da Bombardier são legendárias".

Segundo os diplomatas americanos, o Banco de Exportações do Canadá admitiu que 33% da sua atuação era no setor aéreo. E mesmo companhias "à beira da falência" conseguiam empréstimos para comprar aviões da Bombardier.

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