'Disputa não é entre Norte e Sul. É preciso coesão'

Brasileiro alerta que se processo terminar em divisão da comunidade global, será um resultado 'desafortunado'

Entrevista com

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2013 | 02h06

O embaixador brasileiro Roberto Azevêdo alerta para o risco de que a etapa final do processo de eleição para a direção da Organização Mundial do Comércio (OMC) se transforme em mais uma disputa entre Norte e Sul, sob o risco de criar divisões que contaminem até mesmo as negociações comerciais da Rodada Doha.

"Se nós terminarmos esse processo com uma divisão entre segmentos da comunidade internacional, será um resultado desafortunado. Todos perderemos. A cicatrização leva tempo", alertou Azevêdo, em entrevista ao Estado, um dia depois de ter sido selecionado para disputar a final no processo de seleção contra o mexicano Hermínio Blanco.

Ontem, a OMC confirmou o nome dos dois latino-americanos como os finalistas e apontou que o processo de seleção deve terminar já no dia 7 de maio, depois de mais uma semana de consultas. A nova data antecipa em três semanas o final do processo. Em Genebra, a final foi vista como uma disputa que coloca ricos e emergentes em campos opostos, com o mexicano levando vantagem no votos dos países desenvolvidos e Azevêdo com vantagem entre os países emergentes.

Ontem, o brasileiro insistiu que sua candidatura é mais ampla e apenas ter o apoio de um grupo não será suficiente, numa alusão ao apoio que Blanco teria da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em nota, Blanco seguiu um discurso parecido, insistindo que tem o "amplo apoio" de várias regiões e de diversos grupos de países. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como o sr.nterpreta a eleição de um nome brasileiro para disputar o cargo de diretor da OMC?

Gosto de ver isso como um reconhecimento da qualidade e da contribuição do Brasil nos órgãos internacionais. Temos tradição de bons diplomatas que trabalham de uma forma construtiva. Estar no processo final de escolha é um reconhecimento a esse histórico. O resultado é também um reflexo natural do peso específico que o Brasil tem no cenário global. O País é um ator cada vez mais importante na governança global e tem feito isso de forma responsável. É uma combinação feliz de fatores.

Pela primeira vez, seja qual for o resultado, a América Latina vai dirigir a OMC. O que isso representa para a região?

Não houve decisão deliberada de escolher a região. Países fizeram suas opções por comunhão de visões.

O que vai definir o vencedor agora?

Nessa situação, o que vai prevalecer é a aceitação de uma candidatura no maior número de regiões e em diferentes de grupos de países. Ter apoio concentrado em um só local ou em um só grupo de países não será suficiente. O apoio terá de ser horizontal.

O que distingue a candidatura do sr. da de Hermínio Blanco?.

O traço que mais nos distingue é que minha candidatura vem de dentro da organização, com experiência negociadora e com capacidade de agir imediatamente. Meu histórico como negociador multilateral traz credibilidade testada e reconhecida, além de trânsito e aceitação em todos os quadrantes. A outra candidatura vem de fora.

O sr. acredita que a candidatura brasileira é vista como sendo a que representará os países em desenvolvimento?

Minha candidatura é representativa de todos os países , desenvolvidos e em desenvolvimento. Sua força vem da capacidade de agregar e não dividir. O Brasil tem um histórico importante de parcerias com o mundo em desenvolvimento, que me conhece e me viu trabalhar. Mas também trabalhei muito em parcerias com os desenvolvidos. Essa candidatura não é de uma parte do mundo. Ela tem afinidade com todos.

A final entre México e Brasil é apresentada por alguns como uma disputa entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento. O sr. concorda?

Espero que não se transforme em uma disputa Norte x Sul. A OMC precisa neste momento de parcerias e de coesão. Se terminarmos esse processo com uma divisão entre segmentos da comunidade internacional, será um resultado desafortunado. Todos vão perder. A cicatrização leva tempo. Temos desafios imediatos e enormes, como o pacote de Bali e a Rodada Doha. O foco deve ser a busca de um diretor-geral que seja operacional imediatamente e que melhor sirva a organização como um todo.

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