Disputa pelo carnaval começa antes da avenida

Patrocínios de escolas de samba do Rio e de São Paulo estréiam nos ensaios e vão além das marcas tradicionais

Marili Ribeiro e Alberto Komatsu, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2008 | 00h00

Os diretores das escolas de samba sabem que têm nas quadras um trunfo para negociar patrocínios, quase tão atraente quanto os festejados desfiles na avenida. A grande afluência de público aos ensaios, movida a alegria, é mais do que favorável aos bons negócios. A Vai-Vai, de São Paulo, contabiliza até 8 mil pessoas passando pela escola a cada fim de semana nessa época pré-carnavalesca. A Beija Flor, do Rio, por sua vez, estima mais de 5 mil pessoas se aglomerando a cada ensaio para ver o rebolado das passistas.Atrás desse público, que aumenta a cada ano, já estão as grandes cervejarias . Elas travaram, com certa discrição, mais uma de suas guerrilhas por espaço. A Petrópolis, dona das marcas Itaipava e Crystal, negociou com várias escolas. Só no Rio, ficou com sete entre as do grupo especial, o mais prestigiado. Na adesão às suas marcas está a Viradouro, justamente a escola onde a garota-propaganda da AmBev, a atriz global Juliana (Bar da Boa) Paes, é a rainha da bateria. O gerente de eventos da AmBev no Rio, Felipe Ambra, não vê inconveniente nesse fato. Mas faz questão de informar que a marca Antarctica, dona do marketing do Bar da Boa, resolveu não ficar de fora e marcou presença este ano no carnaval. Coisa que, até o ano passado, não fazia. Fechou contrato de patrocínio com outras sete importantes escolas cariocas.Se a indústria cervejeira disputa as quadras, até por ser um lugar natural para a prática de seus negócios, outras empresas, em especial as que fabricam produtos que aparecem nos enredos das escolas, ou as pequenas empresas que estão no entorno das quadras, também estão investindo em ações de carnaval.Na Vai-Vai, o diretor Renato Maluf conta na quadra com o patrocínio da Raiola Alimentos, da indústria de peças para bicicleta Galo e da Faculdade Zumbi dos Palmares. Isso, sem falar na Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), de Antônio Ermírio de Morais, que também deu uma força à escola, já que o tema do desfile é "Acorda Brasil", uma das peças teatrais de autoria do empresário. Na mesma linha, a também paulistana Águia de Ouro tem apoio da multinacional Unilever, já que a escola vai reverenciar o sorvete na avenida. "Fizeram até leques com o tema da escola, que a gente distribui nos ensaios", diz o presidente da escola, Sidney Carriulo.BANNERSOutra boa forma de as escolas valorizarem sua receita tem sido procurar os pequenos anunciantes. Foi o que fez a paulistana Camisa Verde e Branco, cujo tema do desfile são os cabelos, o que fez a escola buscar patrocínios de empresas voltadas ao segmento. "Temos banners espalhados pela quadra da técnica de alongamento Great Lengths, das escovas Fidalga, da clínica de beleza Hágora e da indústria de equipamentos para salão de beleza Pandora", conta orgulhosa a diretora de Marketing, Virginia Ramos.Mas, se em São Paulo a fase dos investimentos em quadras está em alta, no Rio já houve tempos melhores, como lembram os saudosistas da visita da top model Gisele Bündchen aos ensaios da Mangueira. Tudo armado pelo marketing da AmBev, que conseguiu grande exposição na mídia.A verdade é que o negócio do carnaval expande fronteiras para além dos disputados desfiles, dos manjados camarotes e blocos e - por que não - dá início a uma onda em direção às quadras.Mesmo sem contar com o glamour dos tempos de Gisele, algumas escolas do Rio festejam té mesmo a estréia de anunciantes em suas quadras. É o caso da Ticket Restaurante. Em sua primeira investida na época de folia, escolheu a Vila Isabel para dar ajuda financeira no desfile e também para os ensaios. De acordo com diretor de Marketing da Ticket, Reynaldo Naves, pesaram na escolha da Vila os projetos sociais desenvolvidos pela escola. Já a Beija-Flor e a Viradouro contam com a tradicional parceria no modelo de exclusividade para a venda de cerveja, no caso a Itaipava, e ainda embolsam uma contribuição mensal - pelo ano todo -, cujo valor não é revelado. A presença da Ticket na Vila Isabel vai além de espalhar banners com sua logomarca na quadra. A empresa assumiu também um camarote, com o qual quer fazer um agrado a clientes e funcionários. A ação nos ensaios e o apoio ao desfile correspondem a 10% da verba anual de marketing da Ticket. "Acredito que patrocinar as quadras seja uma tendência, no sentido de aproximar mais clientes e funcionários", afirma Naves, o executivo da Ticket. "A gente não se preocupa com o resultado de curto prazo. Queremos fidelizar o relacionamento com os clientes." A Beija-Flor também tem o patrocínio da fabricante de cosméticos Lilás e de outras empresas de pequeno porte próximas à quadra, em Nilópolis, na região metropolitana do Rio, conforme conta o diretor da escola, Josué Júnior. "Usamos os recursos obtidos com esses patrocínios para a manutenção da própria quadra e também para reforçar o desfile na avenida", afirma Júnior. De acordo com o diretor da Beija-Flor, depois de alguns anos sem muita procura, há um aumento nos patrocínios nas quadras. A percepção desse ambiente favorável fez a Top Service, especializada em viagens de incentivo, incluir os ensaios de escolas de samba no roteiro de seus programas.

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