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''Disseram que foi ajuste, mas do quê?''

O pedreiro João Nedes vê a crise como única explicação para sua demissão

, O Estadao de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 00h00

Cerca de 40 pessoas chegaram de manhã bem cedo ao departamento jurídico do Sintracon-SP, na sexta-feira. De tarde, foram menos, mas o movimento não parou. "É assim sempre, no último mês. Teve dias que vieram mais de 150 pessoas", conta uma funcionária da área. "Graças a Deus está acalmando, outubro foi um horror."É no departamento jurídico que são feitas as homologações das demissões no setor da construção civil, em São Paulo. Na sexta-feira, o pedreiro João Nedes era um dos que aguardava para assinar a documentação. "Estava há mais de três anos na mesma empresa. Saí de férias, quando voltei soube que meus colegas tinham sido demitidos. Mais uma semana e eu fui."Nedes, de 49 anos, diz que a empresa não justificou a demissão. "Disseram que foi um ajuste, mas não disseram ajuste do quê. Só pode ser dessa crise, né?" Ele, no entanto, não quer pensar no assunto. Estava mais preocupado com o presente de Natal do neto Daniel, de 5 anos, que mora com ele. "Vou dar presente, não quero que ele perceba que o vô tá preocupado", desabafa. "Tenho dinheiro pra aguentar até o ano que vem, depois vou me mudar pro interior. Acho que o menino vai gostar de me ajudar a fazer uma horta e criar umas galinhas. Chega dessa cidade grande e injusta."A faxineira Sirlene, que não quis dar sobrenome, também estava surpresa com a carta de demissão que recebeu. "Só tinha eu na faxina e me demitiram. Fui lá outro dia, e tava uma moça do financeiro da obra varrendo o chão. " Até o ano que vem, ela não vai procurar emprego. "As empresas não estão tratando as pessoas direito, vou esperar a bagunça acabar."O aumento nas demissões foi acompanhado de uma queda nas contratações. Após a admissão recorde de 4.631 pessoas em setembro, as contratações na construção em outubro caíram para 2.336, e em novembro para 1.936.O servente de pedreiro Victor Brito foi um dos que conseguiu se recolocar. Demitido há 15 dias, conseguiu uma vaga em uma obra na região do ABC. "Eu precisava do trabalho para pagar a faculdade", diz o rapaz, que está no 2º ano de Engenharia Civil. "Só com estudo eu vou crescer na profissão."Ele conta que, na obra onde trabalhava, foram 5 pessoas embora no mesmo dia que ele. "Fazia 8 meses que eu estava lá e parecia que estava tudo bem."Como Victor tinha menos de um ano de empresa, sua demissão não precisou passar pelo sindicato. "Este é um problema grave", diz o presidente do Sintracon-SP, Antonio de Sousa Ramalho. "Muitas empresas concentram os cortes nos funcionários com menos de um ano de casa, para não aparecer nas estatísticas." Ele avalia que o número real de demissões pode ser bem maior do que foi registrado até agora. "E a justificativa é sempre a mesma: ajuste de fim de ano. Mas estamos enviando um documento do governo para pedir fiscalização de quaisquer empresas que anunciem demissões acima de 2% do seu quadro de funcionários, porque mais que isso já deixou de ser ajuste."

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