Distanciamento social

Estamos mais pobres num mundo que enriquece. Mais pobres e mais desiguais. 

Luís Eduardo Assis, O Estado de S. Paulo

07 de dezembro de 2020 | 05h00

Não vêm de hoje nossas agruras. Nos perdemos há muito tempo e foi assim – perdidos – que fomos encontrados pela pandemia. Em 1990, o PIB brasileiro calculado no conceito de paridade de poder de compra era o equivalente a 90% do PIB da China e 95% do PIB da Índia. Quase iguais. No ano passado, o produto indiano foi mais que o dobro do produto brasileiro, enquanto o PIB chinês foi 7,3 vezes maior que o nosso. Em 2020, nossa renda per capita será 6% menor que a de 2010. Estamos mais pobres num mundo que enriquece. Mais pobres e mais desiguais. 

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou recentemente um estudo sobre a evolução da inflação por faixa de renda. O IPCA para pessoas que ganham menos de R$ 1.690,00 acumulou 5,3% nos 12 meses até outubro, mais que o dobro da inflação dos bacanas que recebem mais de R$ 16.902,75, que ficou em 2,5%. A queda do nível de emprego também foi heterogênea. O trabalhador doméstico foi severamente afetado. O número de pessoas nesta atividade caiu de 6,4 milhões, em dezembro de 2019, para 4,6 milhões, em setembro deste ano, recuo de 27,4%. A segunda atividade que mais caiu foi a de trabalhadores sem carteira assinada: 2,84 milhões de pessoas, ou 24%, ficaram sem ocupação. Na outra ponta, o contingente de funcionários públicos ganhou 188 mil vagas neste período. Lembre-se de que o rendimento médio dos servidores públicos é 50,4% maior que a renda média dos trabalhadores. O impacto desigual segue.

A taxa de desemprego de 14,6% em setembro pode ser decomposta em 11,5% para trabalhadores brancos e 16,1% para negros. O desemprego entre as mulheres alcança 16,9%, bem mais que entre os homens, 11,8%. Os jovens também são mais onerados. Na faixa entre 14 e 29 anos, a desocupação bateu em 23,6%, ante 10,8% no segmento entre 30 e 49 anos. Trabalhadores com ensino fundamental amargam um desemprego de 18,6%, quase três vezes maior que os 6,6% para o grupo que tem ensino superior. Por fim, a diferença regional também escandaliza. Enquanto no Sul temos um desemprego de 9,8%, no Nordeste a taxa é de quase 17%.

O ano de 2020 tem sido particularmente cruel com jovens mulheres negras do Nordeste que têm baixo nível educacional. Enquanto isso, os investidores na Bolsa de Valores brasileira viram seu patrimônio crescer R$ 562,75 bilhões apenas no mês de novembro, o equivalente a 19 anos da dotação orçamentária para o Bolsa Família.

Mind the gap, dizem os operadores do metrô de Londres. Aqui deveríamos fazer o mesmo. O fosso que se abre na sociedade cobrará um preço alto no futuro. A pandemia e a crise econômica nos legarão um isolamento social ainda mais amplo.

Diante deste quadro, o que faz o governo? No seu modo abstruso, distancia-se, ele também, da sociedade. Não há preocupação com a criação de políticas que fomentem relações sociais menos apartadas. Não há planos verossímeis dentro da agenda fundamentalista hiperbólica prometida repetidas vezes pelo ministro da Economia. O mantra liberal sustenta que a distribuição de renda é irrelevante, desde que todas as pessoas sejam beneficiadas por algum aumento de renda. Mas nem sequer isso temos.

Em Capitalism, Alone (2019), o economista Branco Milanovic recorda de que pela primeira vez na história temos apenas um sistema de organização da produção. O capitalismo triunfou e reina sozinho. Mas isso foi feito à custa de uma crescente desigualdade da renda e da riqueza, declínio da mobilidade social e concentração do poder político numa elite econômica, o que impõe enormes desafios aos países que consideram isso um problema. Não parece ser este o caso do Brasil. Não chegaremos a lugar nenhum se deixarmos milhões de brasileiros para trás.

ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E DA FGV-SP. E-MAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM

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