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Fernanda Camargo: O insustentável custo de investir desconhecendo fatores ambientais

Distribuir, parte da solução

Está sendo forte e imediato o choque produzido pelos dados sobre a crescente concentração de renda no mundo, divulgados ontem em relatório da prestigiosa organização Oxfam International, às vésperas do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Ao lado do espectro da deflação nas economias maduras, o tema da desigualdade de renda e de oportunidades deverá dominar os debates no encontro anual da elite empresarial e financeira, com a presença de autoridades governamentais. São, de certo modo, faces de uma mesma moeda.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2015 | 02h00

A informação mais chocante do relatório da Oxfam mostra que 80 bilionários detêm hoje riqueza equivalente à de 3,5 bilhões de pessoas, metade da população mundial. Esse quadro evidencia não só uma situação de injustiça social moralmente insustentável, mas também uma perspectiva econômica sombria para o mundo.

Desde a crise de 2008, a concentração tem aumentado e tende a continuar na mesma e indesejável direção, se políticas ativas de distribuição de renda não forem adotadas pela comunidade internacional, a começar dos países ricos. Se, em 2009, a parcela de riqueza do 1% mais rico equivalia a 44% do PIB planetário, no ano passado chegou a 48% e em 2016 ultrapassará 50% de tudo o que terá sido produzido no ano.

Depois de sete anos de programas de austeridade, intermeados por inundações de dinheiro nas praças financeiras por bancos centrais, o temor da deflação se dissemina não só pela Europa e o Japão, mas até em economias mais dinâmicas, como a americana e a chinesa. O Banco Central Europeu acena agora com a adoção de um "afrouxamento monetário" à moda do Federal Reserve, mas não é pequeno o risco de que o dinheiro injetado fique empoçado nos bancos, depois de anos de contração pela austeridade da renda disponível e do consumo.

A verdade é que, no médio prazo, as perspectivas de crescimento mais otimistas provavelmente estão fora da realidade e a argumentação de que pode estar em curso um longo período de baixo crescimento deverá ganhar mais adeptos. Pouquíssimos países maduros escaparam, em 2014, da deflação, em ambiente de expansão restrita.

Nas economias periféricas da Europa, o recuo nos índices de preços chegou a superar 2% e, nos Estados Unidos, apesar da recuperação do emprego e da expectativa do reinício da alta dos juros em meados de 2015, o ano passado fechou com deflação de 0,4%. De um modo geral, onde houve inflação, ela foi pouco superior a zero.

Mais recentemente, a tendência ao baixo crescimento, indicada pela persistência dos índices quase nulos de inflação, começou a ser vista também como uma consequência da concentração de renda. Faz sentido porque sem uma massa salarial em expansão o investimento - e o crescimento - perdem momento. O achado simplificado de Thomas Piketty, em seu já célebre O Capital no Século XXI, segundo o qual há aumento da desigualdade quando a taxa de retorno do capital é maior que a taxa de crescimento econômico, cada vez menos contestado, sinalizada a necessidade de reciclar as fórmulas de saída da crise.

Pipocam agora estudos, muitos patrocinados por instituições do mainstream do pensamento econômico, como o FMI e o Banco Mundial, defendendo a tese de que políticas ativas de distribuição de renda favorecem o crescimento - e não o constrangem, como era moda considerar antes de 2008. A própria Oxfam oferece um roteiro dessas políticas.

Elas passam por investir na universalização de serviços públicos gratuitos, dividir a carga tributária de modo mais justo, deslocando o peso do trabalho e do consumo para o capital e a riqueza, garantir redes de proteção social, incluindo programas de renda mínima, introduzir regras de igualdade de tratamento de gênero e reprimir a sonegação fiscal.

Distribuir renda, imposição moral antes desprezada, passou, felizmente, a ser encarado como parte da solução.

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