Agustin Marcarian/REUTERS
Agustin Marcarian/REUTERS

Dívida argentina é ‘insustentável’, afirma FMI

Missão do Fundo deixou o país sul-americano na quarta-feira; declaração abre caminho para renegociação com credores privados

France Presse, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2020 | 04h00

O governo de Alberto Fernández, presidente da Argentina, buscará uma renegociação com os credores privados, contando com respaldo do Fundo Monetário Internacional (FMI), que declarou que a dívida da argentina é “insustentável”.

Desde que assumiu a presidência, em dezembro, Fernández (centro-esquerda) afirma que seu país, em recessão desde meados de 2018, não pode pagar sua dívida sem que a economia do país cresça primeiro.

Entre credores que não aceitam fazer concessões e perto da data de pesados vencimentos, no fim de março, o FMI se colocou do lado do governo argentino depois de ter encerrado uma missão no país sul-americano na quarta-feira.

“Somos acusados de populistas, irresponsáveis, mas hoje o FMI nos deu razão”, comemorou Fernández, ontem, em um ato público. “Pela primeira vez na história, o Fundo faz reconhecimento semelhante”, comentou. O presidente afirmou que espera ver “menos banqueiros comprando títulos do banco central” e mais investimento dos empresários do país. 

A Argentina, que em 2001 anunciou um calote de US$ 100 bilhões, luta para não fazer o mesmo agora. E o FMI também está empenhado a evitar esse cenário.

“Creio que temos uma boa oportunidade de negociar algo razoável porque o FMI tem interesse em evitar um default (calote)”, disse, a uma rádio local, o ex-representante argentino na organização internacional Héctor Torres.

O país tem uma dívida total de US$ 311,25 bilhões, o equivalente a mais de 90% do seu Produto Interno Bruto (PIB). Desse montante, o que busca refinanciar são créditos com detentores de títulos privados no valor de US$ 121,97 bilhões (35,9% do PIB) e com organizações multilaterais de US$ 72,68 bilhões (21,4% do PIB).

A postura do FMI “não é um alento para a economia argentina, mas sim para a renegociação. É um respaldo para o governo”, disse à agência de notícias France Presse, Matías Rajnerman, economista-chefe da consultoria Ecolatina. “O FMI é obviamente uma voz de peso no mercado financeiro e dizer que a dívida não é sustentável pode flexibilizar a posição dos credores privados.”

O país tem uma inflação anual de mais de 50%, uma forte depreciação monetária e um aumento da pobreza de quase 40%. 

Em 2006, a Argentina suspendeu relações com o FMI, quando o então presidente Néstor Kirchner, cujo chefe de gabinete era Fernández, cancelou uma dívida de US$ 9,6 bilhões que tinha com o organismo. Durante a presidência do liberal Mauricio Macri (2015-2019), a relação foi retomada e, em 2018, a Argentina fez um acordo stand-by de US$ 57 bilhões. Foram entregues US$ 44 bilhões, mas Fernández recusou o restante do valor.

O país deve apresentar proposta de renegociação aos credores em meados de março. 

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