Joshua Lott/Reuters-14/2/2011
Joshua Lott/Reuters-14/2/2011

Dívida dos ricos chega a 61% do PIB global

Endividamento de US$ 42 trilhões dos países desenvolvidos ameaça a recuperação

Fernando Dantas / RIO, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2011 | 00h00

A dívida de um punhado de países ricos aumentou em US$ 16 trilhões (mais que o PIB americano) desde 2007, e atinge hoje US$ 42 trilhões, ou 61% do PIB global, representando uma das principais ameaças à recuperação da economia mundial.

Esse endividamento pesa hoje sobre Estados Unidos, países da zona do euro, Reino Unido e Japão, justamente a parte mais rica do mundo, que por séculos foi o motor e a vanguarda da expansão da prosperidade humana. Em 2007, antes da crise econômica global, a dívida dos países ricos era de US$ 26 trilhões, e correspondia a 47% do PIB global.

Nesta semana, os mercados globais entraram em estado de choque com a notícia de que a famosa agência de rating (classificação de risco de crédito) Standard & Poor"s havia colocado a nota dos Estados Unidos em "perspectiva negativa". A decisão da S&P não significa que os EUA já foram rebaixados, mas sim que existe uma chance em três de que isto venha a ocorrer em dois anos. Essa simples possibilidade, porém, já é suficiente para mexer com um dos mais importantes pilares do sistema financeiro global.

Desde que a agência iniciou a classificação do crédito do governo americano, há cerca de 70 anos, o rating sempre foi AAA, o máximo possível. Considerada como risco zero, ou pelo menos risco mínimo, a dívida americana sempre foi vista como o piso a partir do qual o risco de todos os outros créditos é medido. Assim, a chance de que a qualidade de crédito dos EUA venha a deixar de ser o parâmetro para avaliar os demais riscos embaralha as perspectivas da economia global num momento que já é particularmente confuso.

O problema americano é que, com a crise global de 2008 e 2009 - e os grandes déficits públicos que foram usados como alavanca para relançar a economia -, a dívida pública explodiu.

Segundo os dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), a dívida bruta do governo americano saltou de 62% do PIB em 2007 para projetados 99,5% em 2011 (e deve chegar a 112% em 2016). Hoje, a dívida está entre US$ 14 trilhões e US$ 15 trilhões.

Três anos. Este ano, os EUA devem completar seu terceiro ano consecutivo com déficit público acima de 10% do PIB, o que colocou a dívida pública em trajetória explosiva. As autoridades econômicas americanas foram extremamente permissivas em termos de expansão fiscal e monetária depois da crise global, pelo medo de que qualquer tentativa de austeridade (que contém a demanda) jogasse o país num atoleiro deflacionário como o que o Japão experimenta desde o estouro da sua bolha no fim da década de 80.

Agora, porém, com uma tímida e intermitente recuperação em curso, os americanos começam a pensar em botar ordem na casa de novo, o que precipitou mais um áspero round de conflito político entre os democratas do presidente Barack Obama e a oposição republicana. "O compromisso (entre os partidos) é a única alternativa ao suicídio econômico, portanto ele virá: a única pergunta é: depois de quanta deterioração?" - resume para o Estado o economista Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia em Berkeley.

Tanto os democratas quanto os republicanos apresentaram planos de reduzir o déficit público em aproximadamente US$ 4 trilhões ao longo de uma década, o que o faria cair na média em aproximadamente 3,5 pontos porcentuais do PIB, segundo análise do investidor Gavyn Davies, colunista do Financial Times. Isto, por sua vez, estabilizaria a dívida bruta em 110% do PIB em 2016, quando uma redução muito gradual se iniciaria. A dificuldade, porém, é que democratas querem que o ajuste fiscal seja baseado em aumentos de impostos para os ricos, enquanto os republicanos preferem economizar em programas de saúde e outras despesas públicas.

Muitos analistas notam que o impasse político nos Estados Unidos corre o risco de prolongar-se até as eleições presidenciais de 2012, o que só tornaria factível o início de um ajuste fiscal para valer em 2013. O recente discurso em que Obama lançou as bases do seu plano de redução do déficit criou a chance de algum acordo a curto prazo com os republicanos, mas, partir daí para fechar um plano comum de ajuste fiscal de longo prazo pode ser bem mais complicado.

"Os republicanos têm todo o interesse político em não dar uma vitória para o Obama, e veem uma chance grande de colocar o presidente contra a parede", diz Edward Amadeo, economista da Gávea Investimentos.

Sustentável. Se o sistema político americano não se acertar para colocar a trajetória da dívida pública do país em trajetória sustentável, a economia global pode ser jogada numa fase turbulenta, e de contornos muito difíceis de se prever. A reação típica dos investidores a uma nação com problemas muito graves de dívida é a fuga de capitais, que faz a moeda do país despencar de valor, e obriga o banco central a subir os juros, para tornar os ativos nacionais atraentes.

Os EUA, porém, não são um país típico, mas sim a potência hegemônica. E, até agora, não há sinais de que qualquer fuga de capitais esteja na iminência de acontecer. É verdade que o dólar vem caindo em relação às principais moedas do mundo, mas isto se deve basicamente à maciça injeção de US$ 600 bilhões que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) vem fazendo desde o final do ano passado. A enxurrada de dólares se espalha pelo mundo e ajuda a aumentar o valor relativo não só de outras moedas, mas também das commodities e do ouro.

No front dos juros, outro termômetro para se avaliar o risco de fuga de capitais, não há até agora nenhum sinal de perda de confiança global no crédito americano. No dia do anúncio do rating americano pela S&P, as bolsas despencaram, mas os juros americanos ficaram praticamente imóveis, e tiveram até uma queda muito ligeira.

"Os investidores estão preocupados com 2013, não com hoje, e foi também sobre 2013 que a S&P falou - estamos a dois anos da crise, em outras palavras", nota Einchengreen.

De qualquer forma, China e Japão detêm juntos pouco mais de US$ 2 trilhões em títulos da dívida pública americana, e os chineses, em particular, vêm manifestando crescente preocupação com a irresponsabilidade fiscal dos EUA. Alguns analistas observam que os mercados reagem de forma descontínua e brusca. Assim, a histórica confiança que garante a solidez secular das fontes de financiamento da dívida americana poderia se dissolver num momento de pânico, se subitamente China, Japão e todos os países que detêm títulos do país corressem juntos para a porta de saída.

Esse cenário de armagedon financeiro ainda está mais no campo da ficção científica do que nas projeções econômicas. Por outro lado, o simples fato de que a S&P lembrou ao mundo que mesmo a potência hegemônica pode se tornar caloteira foi suficiente para jogar um novo elemento de tensão na economia global, que tem tudo para permanecer presente nos próximos anos.

Duelo político

BARRY EICHENGREEN

ECONOMISTA DA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY

"Compromisso entre os partidos americanos é única alternativa ao suicídio econômico, e virá. Mas a pergunta é: depois de quanta deterioração econômica?"

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