Dívida externa cresce 13,6% no 1º semestre

Facilidade de obtenção de crédito no exterior e altas taxas de juros do País fazem a dívida chegar, em junho, ao seu maior valor desde 2000

Fabio Graner,Fernando Nakagawa / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2010 | 00h00

Embalada pela facilidade de as empresas brasileiras obterem crédito no exterior, a dívida externa do País atingiu em junho a marca de US$ 225,17 bilhões, segundo estimativa do Banco Central. Trata-se do maior valor nessa conta desde o ano 2000, quando a dívida do País com os credores internacionais foi de US$ 236,16 bilhões. No primeiro semestre de 2010, o endividamento com o exterior, que vinha tendo relativa estabilidade nos últimos três anos, já subiu 13,6%.

De acordo com o chefe do Departamento Econômico (Depec) do Banco Central, Altamir Lopes, a alta na dívida externa reflete a elevada taxa de rolagem dos empréstimos de médio e longo prazos, que no primeiro semestre ficou em 222%. Isso quer dizer que as empresas não só renovaram os empréstimos no exterior, mas tomaram ainda mais recursos para aplicar em suas atividades empresariais, como novas máquinas ou reforço do capital de giro.

De fato, neste ano os créditos mais longos cresceram US$ 15,8 bilhões e os empréstimos de curto prazo, US$ 11,2 bilhões, embora em termos porcentuais estes últimos tiveram expansão mais forte, já que a base de comparação é menor. No total, o estoque de dívida de médio e longo prazos em junho ficou em US$ 183 bilhões e da de curto prazo, em US$ 42,17 bilhões.

Juros. A professora da Unicamp, especialista em setor externo, Daniela Prates, avaliou que um dos motivos para o aumento da dívida externa é o diferencial de taxa de juros entre o Brasil e o exterior. Segundo ela, com a taxa Selic subindo, fica cada vez mais interessante às empresas buscarem recursos no exterior, onde as taxas de juros estão bem mais baratas.

Para o professor de economia da PUC-SP, Antônio Corrêa de Lacerda, também especializado em contas externas, o crescimento da dívida não chega a ser preocupante, já que ela ainda é relativamente pequena ante o tamanho da economia.

"As empresas estão tomando empréstimos para cobrir seus investimentos. Existem outros caminhos dentro do Brasil, como o BNDES e o mercado de capitais, mas o financiamento externo está barato", afirmou.

Para ele, o crescente déficit em conta corrente está contribuindo para a alta da dívida externa. "O que preocupa é a deterioração da conta corrente, que de alguma forma afeta a dívida, já que o aumento do déficit aumenta a necessidade de recursos externos." Ele prevê que este ano o saldo negativo na conta corrente, que registra as operações de comércio exterior, serviços e renda, vai somar US$ 50 bilhões.

"Para este ano, não há problema. O que preocupa é a trajetória de médio e longo prazos. O que preocupa é a partir de 2011. O governo vai ter de atuar para resolver esse problema", disse.

Rolagem

ALTAMIR LOPES - CHEFE DO DEPEC

"A alta na dívida reflete a elevada taxa de rolagem dos empréstimos de médio e longo prazos, que no primeiro semestre ficou em 222%"

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