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Dívida privada em dólar cresce 130%

Com piora do cenário econômico, alta do dólar e aumento do risco Brasil, empresas passam a ter dificuldade para trocar dívidas antigas por débitos novos; condições pioraram com a perspectiva de o País perder o grau de investimento

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

01 de agosto de 2015 | 22h00

A rápida deterioração dos indicadores econômicos e a possibilidade de o Brasil perder o grau de investimento deixaram em estado de alerta as empresas nacionais endividadas em moeda estrangeira. Antes mesmo de a agência americana Standard & Poor’s colocar em revisão a nota do País, na semana passada, a vida de quem tinha de trocar uma dívida velha por uma nova – numa operação chamada de rolagem de dívida – já estava mais complicada. Além da atratividade menor pelos papéis brasileiros, o custo das captações no exterior subiu.

Nos últimos anos, com o bom desempenho da economia brasileira e abundância de recursos no exterior, as companhias nacionais fizeram grandes captações no mercado internacional. De 2008 pra cá, a dívida externa do País cresceu 75%, para US$ 348 bilhões (sem considerar os empréstimos intercompanhia), segundo dados do Banco Central (BC). A parcela da iniciativa privada representou 61% (US$ 212 bilhões) desse total e cresceu 130% no período.

O problema é que, com o dólar na casa de R$ 3,40, a dívida em reais aumentou. Mesmo quem se protegeu das oscilações da moeda estrangeira, fazendo operações de hedge, sentirá os reflexos do novo ambiente econômico, já que os custos aumentaram. “Neste momento de incerteza, o investidor fica mais restritivo. Ninguém quer comprar um papel que tenha a possibilidade de perder o rating”, afirma o professor do MBA Executivo em Finanças do Insper, Ricardo Mollo. 

Na avaliação dele, com o risco País em elevação, os investidores vão esperar o cenário clarear para tomar novas decisões. “Antes disso, as condições dos financiamentos vão piorar ainda mais, com custo maior e prazos menores.” Exemplo disso, é a redução da taxa de rolagem das dívidas do setor privado (títulos e empréstimos), que caiu de 153% no primeiro semestre de 2014 para 95% neste ano.

Uma taxa acima de 100% significa que foi possível refinanciar toda a dívida que venceu no período e ainda tomar novos empréstimos. Abaixo desse porcentual, o devedor não conseguiu (ou não quis) renovar o débito. “Há um dilema do que fazer neste momento, se faz a rolagem da dívida por um custo maior, se faz um hedge (operação de proteção) ou se faz uma captação no mercado interno. Em qualquer uma das alternativas, o custo será muito maior”, afirma o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Luis Afonso Lima.

Alertas. O crescimento do endividamento das empresas nos últimos anos já foi motivo de alerta do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Instituto Internacional de Finanças (IIF, na sigla em inglês). Em relatório recente, o IIF destaca que as dívidas das companhias brasileiras aumentaram muito rapidamente para níveis preocupantes. Já o FMI afirma que algumas empresas nacionais estão em situação de risco já que a dívida em dólar aumentou e os lucros diminuíram, como é o caso do setor elétrico.

Os alertas podem ser observados também na revisão dos ratings individuais das empresas brasileiras pelas agências de classificação de risco. A Fitch Rating, por exemplo, já promoveu 16 rebaixamentos de empresas em escala internacional este ano, além de 19 notas colocadas em perspectiva negativa. A Standard & Poor’s fez cerca de 40 revisões em menos de uma semana, a maioria seguindo o movimento do rating soberano colocado em observação negativa. 

O fato é que essas mudanças na classificação de risco atrapalham a vida das companhias que têm elevado endividamento, diz o economista-chefe da Austing Rating, Alex Agostini, que já retirou o grau de investimento do País. Segundo ele, o custo de captação está alto tanto lá fora como aqui dentro, em especial para empresas menores. 

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