Dividido, Copom eleva juros a 12%

Banco Central vê incertezas na economia e eleva Selic em 0,25 ponto porcentual, com 5 votos a favor e 2 votos por uma alta de 0,5 ponto

Fabio Graner/ BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2011 | 00h00

O Comitê de Política Monetária (Copom) chancelou a expectativa do mercado de juros futuros de diminuição no ritmo de aperto monetário e elevou a taxa básica do País (Selic) em 0,25 ponto porcentual. Com isso, a Selic atingiu 12% ao ano, nível mais elevado desde o período de 22 de janeiro a 11 de março de 2009, quando o juro básico vigente foi de 12,75% ao ano. A decisão não foi unânime. Cinco integrantes do comitê votaram por alta de 0,25 ponto porcentual, enquanto dois por elevação de 0,50 ponto.

"Considerando o balanço de riscos para a inflação, o ritmo ainda incerto de moderação da atividade doméstica, bem como a complexidade que ora envolve o ambiente internacional, o Comitê entende que, neste momento, a implementação de ajustes das condições monetárias por um período suficientemente prolongado é a estratégia mais adequada para garantir a convergência da inflação para a meta em 2012", informou o comunicado do BC, que foi interpretado como indicação de que pelo menos mais uma elevação da Selic será feita. A próxima reunião do Comitê está programada para os dias 7 e 8 de junho.

Sob a presidência de Alexandre Tombini e com uma diretoria composta exclusivamente por funcionários públicos, o ajuste nos juros este ano já soma 1,25 ponto porcentual, bem próximo do aperto de 1,5 ponto porcentual promovido por Henrique Meirelles quando este assumiu o BC do governo Lula em 2003. Na gestão Meirelles, no entanto, o ajuste no juro ocorreu sobre uma base mais elevada, já que a Selic herdada foi de 25% ao ano e dava continuidade a um ajuste iniciado pelo governo anterior, logo após as eleições, que já tinha subido o juro básico em 7 pontos porcentuais.

Risco. Apesar de o BC de fato estar apertando as condições da economia - tanto via alta de juros, como por meio de medidas de contenção de crédito -, a autoridade monetária ainda está sob fogo cruzado do mercado financeiro.

A avaliação é de que, diante do quadro inflacionário bastante preocupante, com a inflação já rodando em 12 meses próximo do teto da meta (6,5%), e dos sinais de que a economia ainda tem uma demanda interna pujante, o BC brasileiro estaria assumindo riscos demais com a atual política de ajuste gradual dos juros.

Para o economista do BES Investimento Flavio Serrano, a decisão de subir a Selic em 0,25 ponto porcentual indica que o processo de aperto monetário está no final e que alguma outra medida macroprudencial (que tem sido usada para arrefecer o ritmo do crédito) deverá ser adotada para complementar a política monetária.

Na visão dele, uma alta de 0,5 ponto, que era esperada pela maioria dos departamentos econômicos, seria uma demonstração de maior atenção do BC com o processo inflacionário que está instalado no País.

Serrano explicou que, dado o movimento de aumento nos núcleos de inflação (que retiram o impacto dos choques em alguns preços, como alimentos) desde o fim do ano passado (e que a divulgação do IPCA-15 mostrou que se manteve em curso este mês), o ciclo de aperto monetário deveria ter começado antes e ter sido mais agressivo.

"A estratégia do BC pode até dar certo, mas ela considera que não haverá mais qualquer choque. E, no nível que a inflação está, até um choque pequeno pode colocar em risco o cumprimento da meta", disse Serrano, lembrando que a inflação neste ano já deve ficar pelo segundo ano seguido acima do centro da meta, o que não é bom para a credibilidade do BC. "O BC está com uma estratégia restritiva, mas que não é confortável. Achamos que poderia ter sido mais incisivo."

Do lado do BC, o último relatório de inflação deixou claro que a autoridade monetária está de olho não só em domar a inflação, mas também em não sacrificar demais o crescimento econômico. Por isso, o documento trouxe explicitamente que o BC não vai buscar o centro da meta (4,5%) neste ano, apostando que este objetivo será alcançado em 2012.

O BC já se preparou para conviver com críticas até o terceiro trimestre, enquanto a inflação em 12 meses estiver rodando em níveis elevados, mas espera que no final do ano o IPCA acumulado comece a desenhar claramente a trajetória de convergência para a meta de 4,5%, que já poderá ser alcançada até o segundo trimestre do ano que vem.

Terceira alta

0,25 ponto

foi em quanto o Copom do Banco Central aumentou ontem a taxa básica de juros para 12% ao ano na terceira alta seguida em 2011

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.