Renda extra

Fabrizio Gueratto: 8 maneiras de ganhar até R$ 4 mil por mês

Divórcio econômico entre EUA e China é impossível

Pesquisa aponta que 87% das empresas que estão no país asiático rejeitam mudar suas fábricas para a América

Claudia Trevisan*, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2019 | 04h00

Maior montadora dos Estados Unidos, a General Motors vendeu mais carros na China no ano passado do que na terra governada por Donald Trump. O mesmo ocorreu com o KFC, que fritou mais pedaços de frango em seus 5 mil restaurantes no país asiático do que nos 4,2 mil que possui nos EUA. Apesar da desaceleração de seu crescimento, a segunda maior economia do mundo garantiu em 2018 uma expansão de 18% ao Starbucks, que tem 3,7 mil lojas no antigo Império do Meio, de longe o maior número fora dos Estados Unidos. 

Os dados deixam claro que a intenção de Trump de promover o divórcio entre EUA e China é um delírio. À diferença da União Soviética, cuja economia se limitava a sua área de influência geopolítica, a China está entremeada no tecido das operações globais das corporações americanas, que dependem cada vez mais do apetite da classe média para turbinar suas vendas.

Como um casal fadado a coabitar em meio à hostilidade mútua, em algum momento os dois países terão de firmar um armistício em sua guerra comercial e encontrar uma forma de coexistência, ainda que sob a égide da rivalidade. E o primeiro passo nessa direção foi dado ontem, com o anúncio de acordo preliminar que deverá reduzir a tensão bilateral.

Entre os objetivos de Donald Trump com a imposição de tarifas sobre virtualmente todos os produtos importados da China estavam a redução drástica do gigantesco déficit comercial dos EUA e a transferência de fábricas americanas do país asiático para os Estados Unidos. Nenhum deles foi alcançado desde que o presidente americano disparou os primeiros petardos da guerra comercial, em meados de 2018.

No ano passado, o déficit comercial com a China cresceu e chegou ao patamar recorde de US$ 419 bilhões, quase metade do desequilíbrio total entre os EUA e o restante do mundo. Nos primeiros oito meses de 2019, o déficit com a China diminuiu US$ 32 bilhões na comparação com igual período do ano passado, para US$ 238 bilhões – uma parcela ínfima das exportações totais de US$ 2,2 trilhões do país asiático. Ao mesmo tempo, o déficit americano com todo o mundo atingiu US$ 578 bilhões, ou US$ 49 bilhões acima do patamar de 2018.

Em meio ao confronto com Washington, as autoridades de Pequim permitiram que a moeda chinesa, o yuan, se depreciasse a menos de 7,00 por US$ 1,00. 

O movimento deu impulso às exportações chinesas, que cresceram pouco mais de 6% no primeiro semestre de 2019, apesar da retração nos embarques para os Estados Unidos.

A tentativa de usar tarifas para forçar empresas americanas a transferirem suas linhas de montagem para o país de seus quartéis-generais também não funcionou. No dia 23 de agosto, Trump usou o Twitter para ordenar corporações dos EUA a buscarem alternativas à China, “incluindo trazer suas companhias para casa e fazer seus produtos nos EUA”.

Pesquisa do U.S.-China Business Council divulgada no mesmo mês mostrou que pouquíssimos de seus membros estão dispostos a se retirar da segunda maior economia do mundo. Nada menos que 87% responderam que não pretendem mudar suas operações para outros países. Entre os que manifestaram essa intenção, só 3% mencionaram os EUA como destino.

Se no passado a China atraía investimentos externos como plataforma de exportação para o mundo, hoje o foco são os estimados 400 milhões de pessoas que ascenderam à classe média graças ao processo de reforma e abertura iniciado em 1978.

No levantamento do U.S.-China Business Council, 95% das empresas disseram que a razão para investir no país comunista é o acesso a seu mercado doméstico. 

Cerca de metade das companhias declararam que também investem para usar a China como plataforma de exportação para os Estados Unidos e outros destinos.

A guerra comercial parece não ter afetado a performance geral das companhias americanas no país asiático. Na pesquisa, 97% responderam que suas operações na China são lucrativas, 12 pontos porcentuais acima dos 85% que disseram o mesmo em 2015, ano anterior à eleição de Trump. 

Fabricante do icônico iPhone, a Apple está entre as empresas que viram seu faturamento diminuir no país asiático, para US$ 32,5 bilhões nos nove meses terminados em junho, comparados a US$ 40,5 bilhões no período anterior. Mesmo com a queda, o valor supera as vendas totais da Coca-Cola em 2018, segundo a Fortune 500.

A China continua a ser o segundo maior mercado para a Apple depois dos Estados Unidos. Além disso, a marca que está entre as mais valiosas do planeta criou no país asiático uma complexa estrutura de produção, que permite a exportação de milhões de iPhones a preços competitivos para o restante do mundo. O sucesso da Apple está intrinsecamente vinculado à eficiência de suas operações na China, e é pouco provável que a companhia consiga replicar o modelo em outro país.

*PESQUISADORA NÃO RESIDENTE DO INSTITUTO DE POLÍTICA EXTERNA DA ESCOLA DE ESTUDOS INTERNACIONAIS AVANÇADOS DA UNIVERSIDADE JOHNS HOPKINS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.