Divulgação de dados do Ipea se transforma em confusão

Previsões do Instituto sobre a economia não são divulgadas sob argumento de não alimentar especulação

Adriana Chiarini e Irany Tereza, da Agência Estado,

26 de junho de 2008 | 20h29

A divulgação da Carta de Conjuntura do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), tradicional instrumento de análise trimestral da evolução da economia, no qual são feitas as projeções para o desempenho do ano, se transformou nesta quinta-feira, 26, numa verdadeira peleja. As previsões - embora tivessem sido elaboradas pela área técnica - não foram divulgadas, sob o argumento de que o instituto se ateria a análises de longo prazo e não iria alimentar especulações do mercado financeiro. "Não vamos divulgar as previsões para não alimentar especulações do mercado financeiro", declarou Miguel Bruno, um dos atuais coordenadores do Grupo de Análises e Previsões do Ipea. A declaração foi feita pouco depois de o assessor de imprensa do instituto, Estanislau Maria, ter informado, durante a entrevista coletiva, que não haveria projeções "por orientação da Presidência da República". Momentos depois, Maria explicou ("para não dar manchete errada") que não havia censura do governo, apenas uma determinação para o Ipea dar prioridade a estudos de longo prazo. Numa confusa entrevista, o diretor de Estudos Macroeconômicos, João Sicsú, que inicialmente não participara da divulgação da Carta, foi chamado para dar esclarecimentos. Ele afirmou que não há previsões novas institucionais do Ipea, "só individuais". O economista disse, porém, que os técnicos poderiam dar suas previsões sem serem acusados pela direção de alimentar especulações do mercado financeiro. "Nunca teve problema e não terá", afirmou, negando censura ou falta de transparência.  Ninguém, contudo, se pronunciou. E, segundo Sicsú, "as previsões do Ipea estão mantidas como previsões de março para dezembro. Qualquer técnico que tenha dito que o Ipea tenha outras previsões cometeu um erro". Com isso, mesmo diante de alterações de estimativas, como a do próprio Banco Central, que revisou a projeção do IPCA para este ano para 6%, o Ipea continua trabalhando com a expectativa de inflação entre 4% de 5%. Os juros em dezembro também ficaram em 13,25%, embora a Selic já esteja em 12,25%. Quando Bruno pediu à economista responsável pela área de inflação, Maria Andréia Parente, que explicasse porque a projeção para o IPCA continuava a mesma do estudo de março, ela não teve alternativa a não ser informar que "é óbvio" que a previsão para inflação não é mais essa. Outro exemplo de defasagem nas estimativas foi o déficit em conta corrente. Em março, a previsão era de US$ 11,5 bilhões para o ano. Em 12 meses até abril, já atingiu US$ 14,5 bilhões. O Brasil teria de registrar superávit todo o resto de 2008 para validar a previsão.  Um dos coordenadores do Grupo de Análises e Previsões, Marcelo Nonnenberg, que está no Ipea há mais de 30 anos, permaneceu todo o tempo calado, num canto do auditório. Retirou-se da sala quando seu companheiro na coordenação, Miguel Bruno, que conduziu a apresentação, pontuou uma de suas explanações com a afirmação de que "antes, o Ipea atuava em dobradinha com o mercado financeiro".  Procurado, Nonnenberg não quis dar entrevista. Já Fábio Giambiagi, que coordenou o Grupo de Acompanhamento Conjuntural do Ipea de 2004 a 2007, pediu para que fosse reproduzida, entre aspas, a seguinte declaração: "A afirmação é tão ridícula que eu não vou comentar".  Hoje chefe do departamento de Gestão de Risco do BNDES, Giambiagi lamentou o desmonte na estrutura do grupo responsável pela avaliação macroeconômica do Ipea. "Minha avaliação é de que isso acaba com um esforço de praticamente três décadas. Não é um esforço de A ou B, de governo A ou B", comentou.

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