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Dizer que País vai crescer mais que 1,5% ou 2% nos próximos anos é exagero, diz Figueiredo, da Mauá

Segundo o economista, o cenário eleitoral conturbado contribui ainda mais para o ambiente de incertezas e o desempenho fraco do PIB, e a perspectiva é de que, depois da eleição, 'as coisas não vão melhorar'

Entrevista com

Luiz Fernando Figueiredo, sócio-fundador e presidente da gestora de recursos Mauá

Filipe Serrano , O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2021 | 10h11

Sem a perspectiva de um crescimento mais robusto do Produto Interno Bruto (PIB) no ano que vem, o economista Luiz Fernando Figueiredo diz que o Brasil corre o risco de, mais uma vez, ficar para trás em relação ao restante do mundo, que deve recuperar a média de crescimento de 3% a 4% ao ano depois da pandemia

Segundo ele, que é sócio-fundador e presidente da gestora de recursos Mauá, o cenário eleitoral conturbado contribui ainda mais para o ambiente de incertezas e o desempenho fraco do PIB, uma vez que os dois candidatos favoritos na disputa eleitoral atualmente, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, representam riscos para a política econômica e para a estabilidade do País. 

Em entrevista ao Estadão, Figueiredo classifica como um "negacionismo" a crítica de Lula e do Partido dos Trabalhadores à regra do teto de gastos, que limita o crescimento das despesas do governo, e às privatizações. 

Para o economista, o mercado já está mostrando preocupação com o futuro da política econômica brasileira, com a perspectiva de uma disputa polarizada entre Lula e Bolsonaro. "No final, é uma perspectiva de que, depois das eleições, as coisas não vão melhorar", afirma Figueiredo, que foi diretor de política monetária do Banco Central entre 1999 e 2003. 

"Dizer que o Brasil vai crescer mais do que 1,5%, 2% ao ano nos próximos anos é um exagero. A não ser que a gente tome medidas mais firmes de reformas. Alguns podem dizer: o Brasil vai ficar parado, mas não vai piorar. Como assim? O Brasil não deveria ter a opção de ficar parado. Não poderia ficar parado", diz ele, na entrevista a seguir.  

Há um pessimismo nos mercados, por causa dos riscos político e fiscal. Como isso afeta a trajetória da recuperação no País?

Na minha visão, a percepção do que acontece (na economia) está descolada da realidade. É algo que acontece nos mercados. Mas, com este governo, é muito frequente. Na situação fiscal, o que se projetava no início do ano era desastroso. Não foi o que aconteceu. A melhora fiscal é relevante. Mas, quando se olha para os mercados, parece que estamos na iminência de ter uma explosão fiscal. Os preços dos ativos, e até comentários de analistas, sugerem que estamos indo para o caos. A nossa Bolsa tem o pior desempenho do mundo. Nossa taxa de câmbio, entre os países relevantes, é a mais depreciada. A curva de juros reflete um risco de descontrole inflacionário. Poucas vezes na história a gente viu um prêmio de risco tão grande.

O que leva a essa percepção?

Um fator é o estresse institucional (entre o presidente Jair Bolsonaro e as instituições, como o STF), que agora parece ter se acalmado. Vamos ver quanto tempo dura. Por conta desse estresse, há dúvidas sobre como será a política fiscal. Outro fator é porque, num horizonte mais longo, a gente não vê nada bom vindo da eleição no ano que vem. A terceira via tem uma probabilidade relativamente baixa. Espero que cresça. Mas hoje a gente vê dois pólos.

Qual o impacto de um cenário de uma disputa entre Lula e Bolsonaro no segundo turno?

No final, é uma perspectiva de que, depois das eleições, as coisas não vão melhorar. E o Brasil precisa mudar muito ainda. Ainda tem um Estado grande demais. Precisa reduzir. Precisa dar espaço para que o País possa ganhar dinamismo, possa prosperar. Lembrando que faz 15 anos que o País não cresce. E o mundo cresceu nesse período 3,5%, 4% ao ano. O Brasil não só está parado. Ele ficou, e está ficando, cada vez mais para trás. 

Há quem diga que houve avanços institucionais nos últimos anos, com algumas reformas. O sr. discorda dessa visão? 

Os problemas são estruturais. O Brasil está cuidando deles só na superfície. Por exemplo: a reforma administrativa que está no Congresso. É uma reforma sem-vergonha. É uma reforma que, inclusive, coloca o Estado e o funcionalismo numa situação pior do que existe hoje. Tem um impacto fiscal, mas não é só isso que se precisa numa reforma administrativa. O Brasil teima em não cuidar dos problemas de uma maneira efetiva. O que a gente está vendo no preço dos ativos brasileiros é que não tem uma boa perspectiva para frente. 

Nesse ambiente, o que esperar para a economia em 2022?

A perspectiva de crescimento mais razoável no ano que vem está indo por terra. Tem gente muito pessimista, falando em menos de 1%. Na minha visão, os números não indicam um crescimento de menos de 1%. Muita coisa negativa precisa acontecer. Na Mauá, o nosso número é em torno de 1,5%. Pode ser um pouco menos que isso. O que, na realidade, também é um crescimento muito ruim. Não é um crescimento bom. É muito ruim. É um crescimento em que o desemprego melhora, mas melhora muito pouco. Infelizmente, ainda a chance é muito grande de o País continuar patinando durante um tempo longo. O mundo vai voltar a crescer os seus 3% a 4% ao ano, ganhando dinamismo de novo. E o Brasil, com essa perspectiva de não ir para nenhum lugar. Dizer que o Brasil vai crescer mais do que 1,5%, 2% ao ano nos próximos anos é um exagero. A não ser que a gente tome medidas mais firmes de reformas. Alguns podem dizer: o Brasil vai ficar parado, mas não vai piorar. Como assim? O Brasil não deveria ter a opção de ficar parado. Não poderia ficar parado. Para a população de menor renda, que tem menos condições, o Brasil é infernal. É um escândalo o Brasil não melhorar as condições de um contingente muito grande da sua população, que vive numa condição muito ruim.

O que limita o crescimento no ano que vem? É apenas a incerteza sobre a eleição e o próximo governo?

Do ponto de vista estrutural, o País tem uma capacidade muito baixa de crescer. Enquanto não reduzir o peso do Estado, não vai crescer bem. Com esse nível de desemprego, o País deveria ter um impulso maior, porque tem muita ociosidade. Mas a gente tem uma incerteza no ambiente que faz com que não só os empresários não invistam, mas também faz com que as famílias tenham mais cuidado em consumir. Não estamos com um nível de confiança no futuro que nos dá tranquilidade para ter uma vida com um pouco mais de dinamismo. Está todo mundo na retranca, esperando o que vai acontecer. O candidato mais provável no ano que vem, que é o Lula, vem dizendo que não faz sentido ter teto de gastos. Que o tamanho do Estado é aceitável, que não vai privatizar nada. É um negacionismo sobre a situação do Brasil, sobre esse País totalmente estagnado. 

O sr. começou a entrevista falando que a situação fiscal melhorou. Essa melhora está sendo ignorada ou subestimada pelo mercado e os economistas?

Quando se leva o risco institucional ao nível que a gente viu, o mercado passa a levar o risco fiscal também lá para cima. Mesmo que não seja a realidade que está acontecendo. No começo do ano, as projeções de dívida/PIB eram superiores a 100%. Ela está em torno de 80%. A inflação ajudou, mas não foi só isso. A arrecadação aumentou e o governo segurou as despesas. Em segundo lugar, o déficit fiscal primário deste ano, que se imaginava que seria superior a 3% do PIB, deve ficar em 1,5%. No ano que vem, é possível - e diria até provável -, que seja inferior a 1%. O caminho é de uma melhora fiscal. Apareceram agora os precatórios. Mas o interessante é que tivemos muitos flertes com o estouro do teto, e eles caíram por terra até agora. E não estou fazendo juízo de valor. Isso é um fato. As coisas, desse ponto de vista, melhoraram, e não pioraram. Mas, de novo, é uma situação frágil. Pode vir um novo governo e querer mudar tudo isso. 

Do ponto de vista de uma gestora, como lidar com esse cenário?

Na Mauá, a gente está focado em ativos da economia real. Você pode perguntar: ‘mas você não falou que a economia não vai crescer?’ É verdade. Mas isso não quer dizer que em várias áreas não vai ter muito avanço. Estamos muito envolvidos na área imobiliária. É o nosso maior negócio hoje. O setor imobiliário está indo bem. Esse juro (mais alto) esfria um pouco? Sim, mas é um setor que está ganhando dinamismo, tem muita coisa acontecendo. E estamos envolvidos também na área de infraestrutura e saneamento. É um negócio novo para nós. Nosso primeiro fundo acabou de nascer recentemente. Mas a gente está muito entusiasmado, por causa das mudanças promovidas pelo marco de saneamento. Tem um mundo de coisas para se fazer. 

O sr. se refere aos leilões de saneamento?

Não são só os leilões. Mas o que acontece a partir dos leilões. São muitos bilhões de investimento que precisam ser financiados. Tem muita coisa para se fazer. Outra coisa é relacionada a questões de sustentabilidade. Esse tema está fervilhando. E a gente está ajudando várias grandes empresas com soluções que têm a ver com o mercado de capitais, para questões de sustentabilidade. O que quero dizer é que, em média, a economia não cresce. É um desastre para o futuro do País. Um país que ainda é muito pobre. Mas isso não quer dizer que em várias áreas da economia real não esteja acontecendo um monte de coisas. 

Qual a perspectiva para o negócio imobiliário?

A gente está diante de uma enorme transformação no mercado imobiliário. O Brasil ainda é um País em que as pessoas começam a se endividar no pior dos créditos, em vez de se endividar no melhor deles, que é o empréstimo com garantia imobiliária. É o que acontece no mundo inteiro. O que quer dizer isso? Quer dizer que esse tipo de crédito vai se expandir fortemente, como o próprio Banco Central fala e está incentivando. Tem mais de R$ 600 bilhões em ativos que deveriam ser usados como (garantia) colateral, para baratear a um quinto o custo (do crédito). Às vezes até mais baixo do que isso. O que a gente está fazendo, como empresa, é focar as áreas que têm potencial de crescimento muito grande.

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