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Do céu dos CDs ao inferno digital

Há mais pessoas pagando por música em streaming, mas a indústria fonográfica continua vivendo tempos difíceis

The Economist

19 de abril de 2016 | 05h00

Houve um tempo em que as máquinas registradoras das gravadoras não paravam de tilintar. Cada lote de CDs vendido se traduzia em recursos volumosos, parte dos quais remunerava cantores e compositores. Em 1999, ano em que o serviço de compartilhamento de música Napster foi fundado, as receitas das vendas no atacado da indústria fonográfica atingiram o recorde de US$ 23,7 bilhões. Então entraram num declínio praticamente ininterrupto.

Até agora. O crescimento das vendas de música digital em streaming contribuiu para um crescimento de 3,2% no faturamento do setor no ano passado, quando as vendas somaram US$ 15 bilhões. Foi a taxa de expansão mais robusta desde 1998, segundo a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI, na sigla em inglês). Em 2012, as receitas também haviam apresentado ligeira alta. Com 45% das vendas, a maior fatia do mercado cabe à música digital; ao passo que a demanda por CDs continua em queda, tendo representado apenas 39% do faturamento. 

Os serviços de streaming por assinatura, como Spotify, Deezer e Apple Music, tiveram um ano particularmente bom e foram a categoria que registrou o avanço mais acelerado: suas receitas se expandiram em 59%, chegando a mais de US$ 2,3 bilhões. Os downloads de música digital em plataformas como o iTunes (que recortam os álbuns em faixas individuais), foram responsáveis por vendas de US$ 3 bilhões, embora isso represente uma queda de 10,5% em relação ao ano anterior. Parece cada vez mais provável que serviços como o Spotify serão a nova cara da indústria fonográfica.

As boas notícias param por aqui. Para os executivos e artistas do setor, as nesgas de luz não são suficientes para desanuviar o horizonte sombrio. O mercado como um todo permanece 36% menor do que era antes do recorde pré-Napster. O eterno problema da pirataria tampouco foi equacionado. Os downloads ilegais diminuíram, pelo menos nos Estados Unidos, mas a pirataria assume várias formas, como quando as pessoas copiam músicas de fontes digitais. Vários aplicativos para smartphone facilitam o procedimento. A empresa de pesquisas de mercado MusicWatch calcula que, entre o fim de 2013 e o início de 2015, chegou a 20 milhões o número de pessoas que copiam músicas de serviços de streaming, incluindo o YouTube — um aumento de 50%.

Outra grande preocupação da indústria fonográfica é facilidade com que as pessoas têm acesso gratuito a músicas legalmente. Os videoclipes online são o meio mais comum a que as pessoas recorrem para ouvir música de graça. Os vídeos oficiais geralmente vêm acompanhados de anúncios publicitários, mas, apesar de populares, ainda não geram volume significativo de receitas.

Segundo cálculos da IFPI, 900 milhões de pessoas ouvem música através de serviços que permitem uploads de conteúdo por parte dos usuários, como o YouTube, mas esses serviços geram receitas de apenas US$ 634 milhões em termos mundiais, o que representa menos de 4% do total do faturamento do setor.

Isso se deve, em grande medida, ao fato de que grande parte das músicas veiculadas pelo YouTube e por sites similares não é adequadamente licenciada. Relatório da IFPI sustenta que as músicas e os vídeos postados pelos usuários permitem que o YouTube e serviços similares “desenvolvam seus negócios sem oferecer a devida remuneração aos proprietários dos direitos”. Nos Estados Unidos, a lei de direitos autorais aprovada em 1998 (conhecida como Digital Millennium Copyright Act) protege os sites contra ações judiciais por conta de conteúdos não licenciados postados por usuários, contanto que os sites os excluam quando solicitados.

O YouTube foi uma oportunidade de ouro para alguns poucos artistas que iniciaram suas carreiras na plataforma, e os defensores do site sustentam que há grande potencial para que artistas estabelecidos faturem mais com o serviço. Mas, Peter Mensch, agente de bandas como Metallica, Red Hot Chili Peppers e Foals, diz: “Não conheço ninguém que tenha ficado rico com clipes no YouTube”.

Música de graça. O relatório da IFPI mostra que o número de usuários que pagam diretamente pelo acesso a músicas digitais ainda é bem menor do que o dos que ouvem música de graça, mas o contingente de pagantes pelo menos está crescendo rapidamente. Os serviços de streaming contavam com 68 milhões de assinaturas pagas em 2015, frente a 41 milhões um ano antes.

O Spotify tem 30 milhões de assinaturas desse tipo. É possível que, com o tempo, as receitas geradas por esses assinantes, assim como pelos anúncios, cresçam o bastante para permitir o sucesso financeiro de mais bandas e gravadoras, mesmo numa era de música digital. Mensch admite que seus clientes tendem a se dar “razoavelmente bem” no Spotify. Mas nenhum deles vai ganhar dois dólares por faixa, como tempo em que a música era vendidas em lotes de discos físicos.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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