Daniel Teixeira/Estadao
Daniel Teixeira/Estadao

Do escritório para a casa da mãe

Rodolfo Calegari tinha escritório própria e dez funcionários; hoje, tenta reerguer empresa só com seu laptop

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

21 de junho de 2015 | 10h36

Rodolfo Calegari, 45 anos, já fez de tudo. Na adolescência, tentou a vida artística, como modelo e ator. Chegou a aparecer como figurante no programa do homem do sapato branco; mais tarde, fantasiou-se de Papai Noel para a apresentadora Eliana. Mas logo desistiu da vida de artista. “Não tinha padrinho”, lamenta. Depois de passar por empresas de turismo, foi tentar a vida em Fortaleza, como corretor de imóveis. Em 2013, a convite de um investidor, voltou a São Paulo e ao turismo rodoviário, sua especialidade. Dessa vez, não como funcionário, mas como dono. Abriu um escritório no centro de São Paulo, na esquina das Avenidas Ipiranga e Rio Branco. Tinha dez funcionários e um banco de recepcionistas e turismólogos que era acionado sempre que um ônibus era fechado. Principais destinos: Thermas dos Laranjais e Campos do Jordão, em São Paulo, Ilha no Mel, no Paraná, e um pacote para praias de Santa Catarina.

Não demorou muito, no entanto, para uma sucessão de reveses desabar sobre a FCT Turismo. A Copa do Mundo foi o primeiro: “O turismo rodoviário simplesmente travou”, diz Rodolfo. Parecia que era só um soluço. Era só ter paciência, apertar o cinto, que logo tudo voltaria ao normal. Mas vieram as eleições e, em 2015, a crise econômica fez o público-alvo das viagens rodoviárias, a classe média, segurar os gastos com lazer. Como se não bastassem os desafios de mercado, nesse meio tempo, um incêndio atingiu o escritório da FCT. Pouco mais de um ano depois de realizar seu sonho, Calegari se viu obrigado a desistir dele para não ver as dívidas crescerem ainda mais.

Retorno. Só entregar as chaves do escritório não foi suficiente. A crise fez Calegari deixar o apartamento alugado em que morava na Vila Mariana e voltar para a casa da mãe, Júlia, de 72 anos. Desfez-se de toda a mobília da casa, que foi distribuída às pressas entre os parentes. Voltou à estaca zero. Os funcionários ainda mandam para Calegari mensagens via WhatsApp para saber se há alguma viagem programada, mas o empresário diz que a FCT, por ora, está em “stand-by”. É necessário esperar o mercado melhorar antes de novos investimentos.

A empresa hoje resume-se ao laptop antigo de Calegari. É ali, em um quarto apertado na pequena casa da mãe, que ele tenta reerguer seu negócio. Dorme em um sofá-cama e passa o dia fazendo contatos. É um arranjo simples, mas ideal para alguém que tenta se reerguer: “Aqui não tenho custo de moradia.” Para mostrar que está em “stand-by”, e não totalmente fora do jogo, o empresário ainda faz umas viagens aqui e ali. Recentemente, organizou o traslado de 30 pessoas para o Porto de Santos. “É o tipo de coisa que não me cobre nem o custo, mas serve para mostrar que estamos no mercado ainda.”

Calegari admite, no entanto, que parte dos problemas está ligada ao posicionamento da FCT. Ele tenta oferecer um serviço rodoviário “premium” em um mercado pautado pelo custo. “Os brasileiros não olham o benefício. Oferecemos a viagem de um dia para Campos do Jordão em ônibus com sala de entretenimento, manta, travesseiro, café da manhã e guia homologado, por R$ 154”, diz o empreendedor. “O meu concorrente não oferece isso, mas cobra R$ 120. E o turista vai com ele.”

Apesar de todas as dificuldades, Rodolfo não dá sinais de que vai desistir. Está dando os últimos retoques em um ônibus que vai para Campos de Jordão no próximo fim de semana - se der sorte, bem no auge do frio. Além disso, está negociando a organização de viagens de três grêmios empresariais. Sua meta é sair do buraco financeiro e provar que seu mantra de negócios é real: “Turismo rodoviário é coisa séria”

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