Paul Ellis/AFP
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Do jeito mais fácil

Mercado brasileiro continua preso a velhos paradigmas e crê que não resta alternativa senão o BC elevar Selic

Luís Eduardo Assis, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2021 | 05h00

Tem sempre um jeito mais fácil. No Acordo de Paris, em 2015, o Brasil endossou a meta de reduzir em 43% as emissões de CO2 até 2030. O cálculo tomava como base o ano de 2005. Agora, na Conferência de Glasgow, o governo Bolsonaro anunciou que a meta será uma redução de 50%. A diferença é que o volume emitido em 2005 foi revisto para cima e, assim, a nova meta pode subir. Do mesmo diretor deste filme pudemos assistir à alteração da fórmula de cálculo do teto de gastos públicos. Ao invés de considerar a inflação de junho a junho, a proposta é usar a inflação do ano calendário. Como o IPCA do final do ano será maior que a inflação anual até junho, ganha-se folga para gastar mais. Pura prestidigitação.

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O mercado reagiu com ressentida fúria. A manipulação do cálculo do teto não é novidade. Quando essa medida foi introduzida, em 2016, a inflação de 12 meses até junho era bem maior que a inflação estimada para o final do ano, o que deu folga para os gastos em 2017. O novo, aqui, é a desfaçatez com que o governo arrumou dinheiro para pagar a conta do Centrão. Desolados, os traders da Faria Lima jogaram para cima os juros. Em poucos dias, as taxas de um ano saíram de 10,5% para mais de 12%. O Banco Central (BC) poderia atuar nos juros longos operando títulos, mas é muito tímido para tamanho sacrilégio. Restou-lhe o constrangedor papel de tocar funk em velório e subir a taxa Selic para refrear o crescimento, logo agora que temos quase 14 milhões de desempregados.

A adulteração do teto não aniquila as finanças públicas. A arrecadação está em alta, em parte por causa da inflação, e a relação dívida/PIB estimada pelo mercado para o final de 2022 é mais baixa agora (83,5%) do que no começo do ano (94%). Mas o mercado, magoado, acredita que o truque vai elevar as expectativas de inflação.

Em artigo recente (Why do we think that inflation expectations matter for inflation?), o economista do Fed Jeremy Rudd esculacha o papel das expectativas na formação dos preços de forma erudita e elegante. Não importa. O mercado brasileiro continua preso a velhos paradigmas e acredita que não resta alternativa senão o BC elevar a Selic, com o que se antecipa e deflagra uma profecia autorrealizável. O resultado é desastroso. Sem credibilidade, não há mais espaço para mentiras – nem para as mentiras sinceras que interessam ao mercado. Sim, há sempre um jeito mais fácil. Só que dá errado.

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