Do mercado financeiro para as usinas

Com a explosão do álcool, surgem novos investidores como George Soros, o Merril Lynch e o fundo Kidd & Company

Renée Pereira, O Estadao de S.Paulo

22 de dezembro de 2007 | 00h00

Os personagens da nova onda de expansão do setor sucroalcooleiro em nada se assemelham aos usineiros que fizeram fama e dinheiro nas décadas passadas. São investidores acostumados ao especulativo mundo do mercado financeiro e dispostos a correr grandes riscos para embolsar grandes fortunas. Nos dois últimos anos, eles despejaram bilhões de dólares no País, compraram dezenas de usinas e deram partida em outra série de projetos de produção de etanol.Nessa turma, estão incluídos nomes de peso como o húngaro George Soros, o indiano Vinod Khosla, a administradora americana de ativos Wellington Management, os fundos de investimentos Kidd & Company, Stark e Och Ziff Management e o banco Merril Lynch, entre outros. Todos eles chegaram ao País de olho no futuro promissor do combustível verde, que ganhou força com a explosão do preço do petróleo e as crescentes preocupações com o aquecimento global.Cada um tem uma estratégia diferente. Uns preferem comprar usinas prontas, outros se associam a produtores locais e há ainda aqueles que optam por novos projetos. No caso da Comanche Clean Energy, a fórmula foi mesclar as opções. A empresa, com sede no exterior e formada por investidores institucionais americanos e ingleses, estreou no Brasil este ano com a compra de uma unidade de biodiesel e duas destilarias de álcool. Nessa primeira leva, a empresa captou US$ 85 milhões no exterior e deve buscar mais recursos para ampliar as unidades e construir um pólo de biocombustível no Maranhão.O projeto, de US$ 300 milhões, contará com uma unidade de biodiesel e de etanol, além da geração de energia. "Estamos construindo uma ponte para trazer dinheiro externo para o mercado de biocombustível no Brasil", afirma o vice-presidente da Comanche no Brasil, João Pesciotto. Segundo ele, as unidades da empresa serão as mais modernas do País. "Estamos usando técnicas novas para aumentar a produtividade. Queremos mais eficiência e redução de custos, pois commodity vale cada centavo."Apesar da febre do etanol, os novos investidores são criteriosos na escolha dos projetos e empreendimentos para comprar. Marcelo Junqueira conta com propriedade todo o percurso que culminou na criação da empresa Clean Energy Brazil (CEB), um fundo de investimentos com ações negociadas na Bolsa de Valores de Londres. Neto de usineiros, ele foi responsável por apresentar o setor sucroalcooleiro aos estrangeiros. "Depois de muitos encontros e visitas em usinas, eles me chamaram e disseram que havia investidores interessados", conta Junqueira. A partir daí, nascia a CEB, que lançou ações na Bolsa de Londres e captou o equivalente a US$ 180 milhões. Parte do dinheiro foi aplicado na compra de 49% do Grupo Usaciga. "Contou bastante para os investidores o fato de a empresa ter participação em terminal no Porto de Paranaguá."A parceria resultará na construção de mais duas unidades em Mato Grosso do Sul e no Paraná. O apetite dos investidores, que permitiu mais uma captação de US$ 42 milhões, também propiciou a compra de 33% de três unidades do Grupo Unialco, por US$ 65 milhões. Além disso, vai arcar sozinha com um projeto em Campo Grande (MS) com capacidade para moer 1,6 milhão de tonelada de cana. "Apesar de o momento do setor não ser o melhor por causa dos preços baixos, os fundamentos são bons. O mercado consumidor continuará crescendo", diz ele.Essa também é a aposta do megainvestidor George Soros. Ele é o maior acionista da Adecoagro, uma empresa que começou investindo na produção de grãos e leite na Argentina. Chegou ao Brasil há três anos para produzir algodão, soja e milho, e logo se rendeu aos apelos da onda verde. O bilionário, que por muitas vezes apostou contra o Brasil, se tornou um entusiasta do etanol feito à base de cana-de-açúcar.Além de comprar a usina Monte Alegre por US$ 70 milhões, a empresa decidiu investir US$ 1 bilhão na construção de três novas unidades em Mato Grosso do Sul. Juntas elas terão capacidade para moer 12 milhões de toneladas de cana. Na Monte Alegre, que tem capacidade para moer 1 milhão de toneladas de cana, o projeto será equipar a usina para produzir eletricidade a partir de 2009. "O estrangeiro quer retorno garantido. Por isso, tem prioridade em melhorar a competitividade do negócio. Exige mais eficiência", afirma Marcelo Vieira, um dos sócios da Monte Alegre, que se tornou sócio da Adecoagro. Entre os grandes objetivos da empresa está o desenvolvimento do mercado externo de etanol. A produção das três usinas, que começarão a operar a partir de 2008, deverá seguir para o exterior. Vieira reconhece, porém, que o mercado internacional ainda precisa de grande trabalho para ter uma demanda firme, que garanta volume expressivo de exportação.De qualquer forma, o uso do etanol como combustível não tardará para se tornar realidade difundida no mundo todo, avaliam investidores. "Nesse cenário, o álcool brasileiro vai ser o que mais vai crescer, pois é mais competitivo, avalia Sergio Thompson-Flores, presidente e sócio da Infinity Bio-Energy. A empresa, com ações negociadas em Londres, é formada por 50 investidores, entre eles, Merrill Lynch, Wellington Management, Stark Investments, Kidd & Company e Ranch Capital Investment.Nos últimos anos, a empresa tem demonstrado um apetite invejável por ativos do setor. Já comprou sete usinas em operação e em construção em Minas Gerais e Espírito Santo, além de contar com outros três projetos em Mato Grosso do Sul. No total, investiu US$ 600 milhões e planeja mais US$ 400 milhões para 2008. "Hoje temos cinco processos de aquisição em andamento", diz Thompson-Flores. Toda essa voracidade traduz o lema da empresa, que é se transformar no maior grupo usineiro do País. Outro time de bilionários que entrou de cabeça para investir no setor é a Brenco, que tem como acionista o indiano Vinod Khosla, um dos fundadores da Sun Microsystems. Contrário à produção de álcool de milho, por causa da sua ineficiência, e fã da tecnologia total-flex brasileira, ele viu no álcool da cana-de-açúcar uma grande oportunidade de ganhar dinheiro e se tornou o principal lobista do produto nos EUA. Presidida pelo ex-presidente da Petrobrás Philippe Reichstul, a empresa está construindo cinco usinas no País e planeja um parque produtor de 10 unidades.

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