Do ouro aos bancos centrais, a história da política monetária

Livro de José Júlio Senna, ex-diretor do BC, faz análise histórica da evolução do conceito de moeda e das políticas de estabilidade, da Grécia antiga à economia de mercado

Fernando Dantas / RIO, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2010 | 00h00

Os antigos gregos tinham democracia e moeda estável, já os romanos foram um império autocrático com irresponsabilidade monetária e inflação. Os Estados Unidos foram um dos últimos países do mundo rico a se render à ideia de ter um banco central estatal.

E a Escócia, num longo período nos séculos XVIII e XIX, desfrutou de grande estabilidade monetária sem ter nenhum banco central, com um sistema chamado de "free banking", em que os bancos privados eram responsáveis por emitir moeda. Já no Brasil, o início da emissão de papel-moeda, com a chegada de D. João VI e a fundação do Banco do Brasil em 1808, rapidamente levou a uma situação de anarquia monetária.

Todos esses fatos estão no recém-lançado Política Monetária - Ideias, Experiências e Evolução, de José Júlio Senna. O livro de 500 páginas, que demorou nove anos para ser escrito, tem o objetivo de contar a trajetória da moeda e da política monetária, em seus principais aspectos teóricos e práticos, desde os primórdios da história humana.

"Quis mostrar como nada disso que temos hoje nasceu da noite para o dia, e como a luta pela preservação do poder de compra da moeda é antiga: seus princípios foram descobertos intuitivamente pelos povos há milênios", resume Senna, que é economista, ex-diretor do Banco Central e hoje é sócio-diretor da MCM consultores associados.

O livro é dividido em quatro partes, e a primeira faz uma detalhada apresentação da história da moeda e dos sistema monetários. No início, havia os regimes monetários metálicos, isto é, em que o dinheiro era apenas a moeda física, cunhada inicialmente pelos gregos por volta de 600 a.C. Nessa fase, uma boa "política monetária" consistia em não alterar o peso e a pureza das moedas metálicas (principalmente ouro e prata), não fazer ligas com metais menos nobres e não alterar o seu valor nominal. Qualquer falha nessa área significava aumentar meios de pagamentos e, como hoje, levava à inflação. Além de contrastar a seriedade monetária dos gregos com a bagunça dos romanos, o livro destaca outros regimes "sérios" da história, como o do Império Bizantino e o árabe.

Ouro. Ainda na primeira parte, há capítulos sobre os regimes mistos, em que as moedas metálicas conviviam com o papel-moeda, e o regime fiduciário (moeda sem lastro), que se seguiu ao fim do padrão-ouro, depois da Segunda Guerra Mundial. Em 1971, finalmente, os EUA anunciaram o fim da possibilidade de que reservas em dólar de outros países fossem trocadas por ouro do governo americano, rompendo, como escreve Senna, "o último vínculo existente entre o ouro e o sistema monetário internacional". A partir de meados do século XX, o mundo convergiu para o regime fiduciário.

Na segunda parte do livro, Senna aborda a história dos bancos centrais. Originalmente, as instituições financeiras equivalentes aos atuais bancos centrais, que emitiam dinheiro, tinham participantes privados, atuavam como bancos comerciais e perseguiam lucros. "Foi um longo processo de adaptação até os bancos centrais tornarem-se instituições com as funções de hoje."

Bancos Centrais. Ele conta ainda a história dos primeiros bancos centrais, a começar pelo pioneiro, o da Suécia, e aborda também o último BC de grande porte a ser constituído, o Banco Central Europeu (BCE), em 1998. O complicado e tardio nascimento do Federal Reserve (Fed, banco central americano) também é destrinchado.

A terceira parte do livro examina a evolução da teoria monetária ao longo dos séculos. Senna começa com análises de economistas "clássicos" e dedica muitas páginas ao pensamento de John Maynard Keynes e à chamada "contrarrevolução monetarista", cujo principal expoente foi Milton Friedman.

Na última parte, Senna trata da política monetária no Brasil. Segundo escreveu no prefácio Carlos Ivan Simonsen Leal, presidente da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a parte sobre o Brasil "cobre uma imensa lacuna na literatura especializada nacional e por si só constituiria obra de imensa importância".

Pesquisa

JOSÉ JÚLIO SENNA

EX-DIRETOR DO BANCO CENTRAL

"Nada do que temos hoje nasceu da noite para o dia. A luta por preservar o poder de compra da moeda é antiga e seus princípios foram descobertos há milênios"

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.