Documento sobre negociação da dívida argentina preocupa credores

Um detalhe nos documentos legais que regulamentam a oferta de reestruturação de dívida soberana de US$ 100 bilhões da Argentina com os credores privados, iniciada hoje, está gerando dúvidas entre investidores e analistas. Segundo o jornal Financial Times, que chamou a atenção ao problema em sua edição de hoje, a questão poderá inclusive enfraquecer a estratégia de marketing do governo argentino. Alguns analistas e estrategistas contatados pela Agência Estado solicitaram inclusive esclarecimentos às autoridades financeiras argentinas, mas, por enquanto, a dúvida permanece.Para garantir a maior adesão possível dos credores à oferta de reestruturação da dívida, o governo do presidente Néstor Kirchner prometeu repetidamente nos últimos meses que os investidores que participarem da transação terão direito a quaisquer melhoras subseqüentes na oferta graças à cláusula "credor mais favorecido".O governo argentino afirma que essa cláusula foi criada para proteger os investidores ao garantir que não haverá uma oferta melhorada no futuro. Isso, segundo os analistas, é uma das principais armas das autoridades argentinas na tentativa de estimular a participação na troca.Ponto duvidosoEntretanto, o FT observa que um estudo cuidadoso de um parágrafo do "Prospectus Supplement", um dos documentos legais submetidos e aprovados pelas autoridades dos Estados Unidos (US Securities and Exchange Commission) sugere que o governo será capaz de fechar acordos com credores no futuro em condições melhores sem necessariamente acionar a cláusula.Na página 60 do documento, um parágrafo afirma que a "a Argentina reserva o direito, sob sua absoluta discrição, de comprar, trocar, oferecer para comprar o trocar, ou entrar num acordo em com respeito a qualquer papel eligível que não sejam trocados na oferta". E acrescenta: "Os termos de quaisquer dessas compras, trocas ofertas ou acordos poderão diferir dos termos da oferta". O ponto crítico, segundo o FT, é que a frase seguinte omite a palavra "acordo".Segundo o FT, uma versão prévia do Prospectus Supplement, publicada em dezembro do ano passado, contém a palavra "acordo". A retirada da palavra da segunda versão fez levantar a suspeita entre alguns credores de que trata-se de uma estratégia deliberada do governo argentino. Ela permitirá uma negociação futura dos títulos não incluídos nessa troca, com condições mais vantajosas para os credores.

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