Documentos oficiais da Fazenda não têm projeções

Com dificuldade de cumprir metas, análise abandonou perspectiva e passou a ser retrospectiva

BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2013 | 02h07

A dificuldade do governo em cumprir metas e as críticas ferozes ao otimismo do ministro da Fazenda, Guido Mantega, levaram sua equipe a retirar projeções de um documentos oficial sobre a economia. Desde agosto passado, o boletim Economia Brasileira em Perspectiva deixou de trazer a previsão para o crescimento e investimentos nos próximos anos.

A análise ficou mais focada em dados já conhecidos. De perspectiva, passou a retrospectiva. A última edição, de março, não traz estimativas de indicadores calculados pelo governo. O documento lembra dos eventos ocorridos no ano passado e traça um cenário otimista sobre o crescimento e queda da inflação. Mas não se compromete com números para este ano.

Em agosto, quando divulgou previsões de Produto Interno Bruto (PIB) e de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), o ministério pediu minutos depois que os números fossem desconsiderados. Disse que houve um equívoco na publicação, o que gerou mal-estar internamente.

O boletim previa a expansão da atividade em 3% e dos investimentos, em 8,8%, quando nem o governo nem o mercado acreditavam nessas projeções. O crescimento foi revisto para 2%, mas não chegou à metade disso: foi de pífios 0,9%, o Pibinho.

Desde então, a ordem é transmitir um discurso de otimismo sobre a economia e os investimentos, considerados chave neste início de retomada, mas sem comprometimento com números.

As previsões oficiais ficaram restritas, basicamente, aos relatórios bimestrais de programação orçamentária. Ainda assim, Mantega destacou que não se tratava de meta, mas de uma necessidade para calcular as previsões de receitas e despesas este ano. A última estimativa é de uma expansão da economia de 3,5% em 2013, mas no momento da divulgação Mantega avisou que vai revisar o dado para baixo no próximo relatório. Para investimentos, a alta esperada é de 6% este ano.

A projeção do PIB virou tabu na Esplanada dos Ministérios, porque Mantega quer evitar o fiasco de 2012. O ministro começou o ano projetando 4,5% e manteve o otimismo quase até a reta final. Quando saiu o Pibinho, ele foi atacado duramente pelo excesso de otimismo.

Hoje, o maior temor é de que a economia não alcance os 2,7% de 2011, o pico de crescimento do governo Dilma.

"O abandono das metas é péssimo para traçar cenários e para os investidores. O espírito animal para ser ativado depende de confiança", diz o economista Felipe Salto, da Tendências Consultoria.

Para Fábio Akira, economista-chefe do JP Morgan, a deterioração fiscal engloba a percepção de que outras metas foram relaxadas. "Quando se aumenta muito o escopo da rubrica do que se pode descontar da meta fiscal, se perde a noção do que pode ser o superávit e isso traz instabilidade institucional", disse o economista. / R.V. E A.F.

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