Doha e as ilusões da geopolítica

Mais um capítulo do enorme livro das ironias da história foi concluído nesta semana em Genebra. Índia, China e Estados Unidos levaram ao fracasso mais uma tentativa de acordo na Rodada Doha de negociações comerciais. Ninguém sabe se é o colapso final ou se a negociação será retomada em dois ou três anos, ou num prazo mais longo. Há cinco anos, Índia e China foram convidadas para integrar o Grupo dos 20 (G-20), criado pelo Brasil para combater os subsídios à agricultura e o protecionismo do mundo rico. Deram peso ao G-20, isso não se pode negar. Anteontem, seus negociadores deram contribuição decisiva a mais um fiasco defendendo uma tese contrária aos interesses brasileiros.Os dois países foram escolhidos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em seu primeiro mandato, como parceiros estratégicos do Brasil. A China foi reconhecida como economia de mercado. A Índia foi convidada para integrar um grupo conhecido pela sigla Ibas - Índia, Brasil e África do Sul.Indianos e chineses nunca se deixaram arrastar por essa fantasia. Em setembro de 2006, um vice-ministro do Comércio da Índia, Jairam Ramesh, disse à repórter Patrícia Campos Mello, do Estado: "Não se enganem, Brasil e Índia são concorrentes." A idéia dos dois países como aliados naturais "é um pouco ingênua", explicou Ramesh. E completou: "Competimos em manufaturas, temos interesses contrários em agricultura e, em serviços, queremos uma abertura mais rápida do que os brasileiros."Publicada pouco antes da visita do primeiro-ministro indiano a Brasília, a entrevista causou agitação diplomática, mas não parece ter entrado na pauta de conversações.O vice-ministro Jairam Ramesh apenas traduziu em palavras francas um fato conhecido de qualquer pessoa familiarizada com a Rodada Doha. Na conferência ministerial de Hong Kong, em 2005, a delegação indiana, chefiada pelo ministro do Comércio, Kamal Nath, havia defendido condições especiais de protecionismo agrícola para as economias em desenvolvimento - algo mais amplo que as salvaguardas tradicionais e as listas de produtos "sensíveis" propostas pelos negociadores europeus e americanos.Parte da delegação brasileira, enviada pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, aplaudiu a proposta e defendeu o uso daquelas barreiras para defender os agricultores familiares - uma enorme tolice diante do poder de competição da agricultura nacional e de seu interesse na abertura dos mercados. O pessoal do Itamaraty deve ter percebido a bobagem de seus colegas de governo, mas decidiu tratar com simpatia a pretensão dos indianos, partilhada pelos chineses, em nome da unidade estratégica das economias em desenvolvimento.A atuação indiana e chinesa nessa reunião apenas confirmou os limites da cooperação entre os membros do G-20. Poderiam trabalhar juntos para defender a liberalização do mercado agrícola no mundo rico, mas nem todos estariam dispostos a enfrentar abertamente a competição internacional. Para alguns países, como Brasil, Argentina e Uruguai, a plena liberalização do mercado seria o melhor resultado. Mas era preciso, imaginavam os diplomatas, manter o G-20 e, além disso, compor interesses com outros grupos de países pobres e em desenvolvimento igualmente protecionistas em agricultura.Qualquer observador menos distraído teria percebido, nessa altura, o fato indisfarçável: os interesses do Brasil, no comércio agrícola, não eram os mesmos de vários outros membros do G-20 e de outros conjuntos mais ou menos organizados para a Rodada Doha. Mas a diplomacia brasileira quase sempre se comportou como se tivesse de promover, com sua retórica e seu empenho, os interesses de grupos e não os do País.Essa foi uma das marcas do governo Lula desde o início do primeiro mandato: definir o interesse nacional quase sempre como vinculado a interesses de parceiros do Mercosul, da América do Sul e até de um "Sul" imaginário, formado por uma fantasiosa confraria de países pobres e em desenvolvimento. Essa concepção nunca foi partilhada pelos parceiros "estratégicos", a começar, naturalmente, pelos do Mercosul.Na maratona de negociações de Genebra, encerrada na terça-feira, o chanceler Celso Amorim mostrou uma rara disposição de pôr em segundo plano, pelo menos por algum tempo, o interesse de qualquer confraria sulina. Fez um esforço inegável e quase teve sucesso. Com o fiasco da rodada, terá de pensar em novas prioridades. Seria bom se jogasse fora, ao mesmo tempo, as fantasias geopolíticas dos últimos anos. *Rolf Kuntz é jornalista

Rolf Kuntz*, O Estadao de S.Paulo

31 de julho de 2008 | 00h00

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