Doha: impasses em agricultura e indústria prolongam debate

Membros do G20 não querem oferecer maior acesso a seus mercados.

Márcia Bizzotto, BBC

23 de julho de 2008 | 21h12

O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy, manteve os sete principais negociadores da Rodada Doha reunidos até a madrugada desta quinta-feira, em Genebra, na tentativa de avançar nos pontos que geram maior discórdia na atual proposta.Até a 1h00 de Genebra (23h00, hora de Brasília) nenhuma proposta nova havia surgido nas negociações e o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, deixou a sede da OMC nervoso e mal-humorado, sem dar declarações aos jornalistas.O chanceler esteve reunido com os representantes de Estados Unidos, União Européia, Japão, Índia, China, Austrália e Japão desde o início da tarde, com uma agenda centrada em 11 tópicos relacionados às propostas de cortes de subsídios agrícolas e abertura do setor industrial.Para Lamy, uma reunião restrita permitiria aos negociadores jogar mais abertamente sobre suas possibilidades de movimento e seria, portanto, a melhor forma de destravar questões polêmicas.Durante uma pausa na reunião, o ministro de Comércio indiano, Kamal Nath, disse estar satisfeito com o rumo do debate, mas faltaram elementos que justificassem o seu otimismo."Estamos reconciliando muitas coisas", disse. "Se o acordo estivesse morto não voltaríamos a nos reunir em uma hora. Isso é um bom sinal."Mas o embaixador permanente da Índia ante a OMC, Ujal Singh Bhatia, afirmou em seguida que havia "uma séria de incertezas" no ar.ImpasseO impasse neste terceiro dia de negociações se deve à rejeição dos países em desenvolvimento, especialmente os membros do G20, em oferecer maior acesso a seus mercados para produtos industrializados e aceitar a exigência das grandes potências de estabelecer uma cláusula anti-concentração, que impediria que os países emergentes blindem todo um setor de suas indústrias do corte de tarifas de importação.Seria uma forma de evitar que Brasil e Argentina protejam, por exemplo, toda a indústria automotiva ou, que a China proteja toda a sua indústria têxtil, dois setores importantes para União Européia (UE) e os Estados Unidos, que poderiam competir com vantagem com produtores de países emergentes.Por outro lado, europeus e americanos se negam a melhorar suas propostas de corte de tarifas de importação e de subsídios agrícolas, como pede o G20 e outros países de baixa renda, antes de receber algo em troca pelos movimentos que já fizeram.A UE argumenta que já foi bastante generosa ao assumir, por iniciativa própria, uma reforma de sua política agrícola comum (PAC) - que resultará em uma redução de 13% em seus subsídios até 2013 - e propor agora um corte de 54% nas tarifas de importação.Por sua parte, os Estados Unidos insistem que sua nova oferta, de limitar a US$ 15 bilhões à ajuda a seus produtores, é um passo suficientemente grande para merecer uma recompensa dos outros sócios da OMC."Colocamos uma proposta nova e importante na mesa. Agora esperamos que nossos parceiros façam o mesmo", disse a representante comercial americana, Susan Schwab.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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