Doha volta à cena na base do ''pegar ou largar''

A Rodada Doha tem de acabar este ano, disseram ontem três chefes de governo - a chanceler alemã Angela Merkel, o primeiro-ministro britânico David Cameron e o presidente indonésio Susilo Bambang Yudhoyono. Não dá para adiar de novo, concordaram. É necessário e possível concluir o trabalho, acrescentou o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy. Segundo ele, os negociadores já completaram, em média, 80% das tarefas e é preciso retomar as discussões.

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2011 | 00h00

Falta embarcar o governo americano nesse empreendimento. Não há menção à Rodada Doha na Mensagem sobre o Estado da União do presidente Barack Obama ao Congresso nesta semana, lembrou o professor Jagdish Bagwati, da Universidade Colúmbia, respeitado especialista em comércio e conhecido defensor da liberalização dos mercados.

Além do mais - poderia ter acrescentado -, o governo democrata mais de uma vez manifestou a pretensão de reabrir as questões já acordadas. Isso mudaria os objetivos definidos em 2001 em Doha, no lançamento das negociações. Para os grandes exportadores agrícolas, como Brasil e Argentina, o recuo seria desastroso. No caso da agricultura, mais de 80% dos pontos importantes já foram acertados, segundo Lamy. Em outros - como o setor de serviços - o avanço foi menor.

Brasil, China, Índia e África do Sul apoiam a retomada das negociações a partir dos pontos já acertados, segundo nota distribuída pelo ministro brasileiro de Relações Exteriores, Antônio Patriota, e pelos ministros chinês, Chen Deming, indiano, Anand Sharma, e sul-africano, Rob Davies. Eles criticam, porém, as exigências feitas pelos negociadores do mundo rico - exageradas, segundo argumentam - e reclamam mais benefícios para os países em desenvolvimento.

É indispensável concluir o trabalho não só para aperfeiçoar as normas de comércio, mas também para fortalecer o sistema, argumentou Lamy. Os emergentes aumentaram suas exportações durante a crise e hoje respondem por mais de metade do comércio internacional. Isso foi possível, segundo ele, porque o sistema de regras continuou em vigor e as medidas protecionistas causaram poucos danos.

A maior parte da missão está cumprida, mas haverá dificuldades políticas, disse Lamy aos governantes. Eles terão de vencer a resistência de parte do eleitorado, contrária a concessões comerciais. Não mencionou nenhum país, mas são conhecidos os compromissos do governo Obama com grupos mais protecionistas e a oposição de setores da UE à liberalização agrícola.

O representante dos EUA para o Comércio Exterior, Ron Kirk, está em Davos e ontem deveria encontrar-se com o ministro Antônio Patriota. Ambos devem participar, hoje, de uma minirreunião ministerial convocada pelo governo suíço. Está prevista a presença de 23 ministros.

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