Dólar a R$ 2,40 pode levar BC a reagir, dizem especialistas

O novo salto na cotação do dólar, que fechou ontem a R$ 2,3920, levou analistas a questionarem a possibilidade de o Banco Central agir com mais vigor para evitar que a moeda americana atinja o patamar psicológico de R$ 2,40, utilizando outros instrumentos além das operações de swap cambial. Mesmo após as operações de swap de ontem, a moeda americana continuou se valorizando ante o real.

CENÁRIO: Fabio Alves, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2013 | 02h07

Na opinião do economista-chefe para Brasil do Deutsche Bank, José Carlos Faria, o BC vai tentar evitar que o câmbio chegue a R$ 2,40 para mitigar os potenciais efeitos inflacionários. "As intervenções da semana passada no mercado de câmbio, a meu ver, demonstraram essa preocupação do BC. Entretanto, o ambiente externo e os fundamentos locais não são favoráveis ao real, portanto é possível que o BC não consiga evitar uma depreciação maior", disse Faria.

Indagado sobre os efeitos de o dólar bater no patamar de R$ 2,40, Faria respondeu ser difícil dizer qual será o impacto psicológico, mas ele disse acreditar que a volatilidade do mercado e a pressão sobre a taxa de câmbio são sinais que mostram instabilidade e tendem a prejudicar a confiança dos consumidores e empresários.

"Além disso, aparentemente as empresas têm relutado em subir os preços para acompanhar o câmbio na esperança que a desvalorização observada até agora seja um fenômeno transitório. O câmbio a R$ 2,40 pode levar as empresas a rever essa expectativa, aumentando o repasse para os preços", afirmou o economista do Deutsche Bank.

Para o economista-chefe para América Latina do banco Goldman Sachs em Nova York, Alberto Ramos, a reação do BC ao câmbio não será independente do contexto internacional. "Se estivermos num cenário em que a redução dos estímulos monetários pelo Federal Reserve, ou qualquer outra força de caráter global, leve a uma depreciação da maioria das moedas emergentes, talvez o BC mostre um pouco mais de tolerância (com a desvalorização do câmbio)", disse Ramos. "Mas, se o real se depreciar muito mais que outras moedas emergentes, então o BC terá de mostrar um pouco mais de determinação e ancorar o câmbio."

O problema do câmbio para as autoridades brasileiras, segundo o economista do Goldman Sachs, é que a desvalorização ocorre num contexto de inflação mais alta. Ao contrário do que enfrentam as autoridades econômicas no Chile ou na Colômbia, que se sentem mais confortáveis ou até consideram bem-vinda a depreciação das moedas para melhorar a competitividade externa, pois a inflação naqueles países está em patamar abaixo das metas inflacionárias, o que não ocorre no Brasil, observou Ramos.

Em relatório enviado ontem a clientes, o estrategista para mercados emergentes do banco ING em Londres, Gustavo Rangel, disse que, apesar de a cotação de R$ 2,30 parecer um patamar importante psicologicamente, não é ainda um nível que o BC está preparado para combater a qualquer custo.

"Dado o cenário desafiador para a inflação, seria razoável esperar o BC brigar contra uma depreciação mais rápida do real em direção a R$ 2,40", disse Rangel na nota a clientes. Segundo ele, o repasse de um câmbio mais desvalorizado nos preços é o principal risco para a inflação. "Como consequência, por agora, suspeitamos que o BC resistirá sancionar uma desvalorização adicional do câmbio, e continuará lutando para limitar o repasse do real mais fraco aos preços domésticos ao manter uma retórica relativamente 'hawkish' (conservador) em relação à política monetária", argumentou Rangel.

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