Tensões políticas levam Bolsa a encerrar em queda; dólar sobe e fecha a R$ 5,38

Críticas de Bolsonaro ao inquérito das 'fake news' pesa no mercado brasileiro nesta quinta; aumento das tensões EUA-China também preocuparam o investidor

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2020 | 09h08

O aumento das tensões entre o presidente Jair Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal seguraram os ganhos da Bolsa de Valores de São PauloB3que fechou com baixa de 1,13%, aos 86.949,09 pontos. O dólar também foi afetado pelo conturbado cenário político do País e contrariou o movimento de queda visto no exterior, ao fechar com alta de 1,97%, cotado a R$ 5,3832.

A postura defensiva do mercado brasileiro nesta quinta reflete a turbulência gerada pelos desdobramentos do inquérito das fake news, que apura o envolvimento de empresários, políticos e blogueiros aliados do presidente nas notícias falsas que foram divulgadas contra ministros do Supremo. Após uma ação que apreendeu celulares e computadores dos investigados, Bolsonaro criticou a ação do STF contra o 'gabinete do ódio' e disse que "ordens absurdas não se cumprem".

 

Além do cenário local, o aumento das tensões entre Estados Unidos e China também colaboraram para que o Ibovespa, principal índice do mercado de ações brasileiro, acentuasse as perdas no final da sessão. Os mercados ficaram ainda mais preocupados, após Donald Trump anunciar que fará uma entrevista coletiva na próxima sexta-feira, 29, apenas para falar sobre o país asiático. O aviso fez crescer o temor de que novas sanções sejam anunciadas.

Em sintonia com o noticiário local e internacional, a Bolsa não conseguiu segurar os ganhos por muito tempo, após bater na máxima de 88.090,67 pontos. Com a queda desta quinta, a B3 perdeu o patamar dos 87 mil pontos conquistados nas últimas sessões. Apenas no pregão anterior, em sintonia com os bons resultados de Nova York, a Bolsa fechou com ganho de quase 3%.

Apesar dos resultados, o Ibovespa ainda tem ganho de 5,81% na semana e de 8% em maio, mas cede 24,81% no ano. Entre as ações que perderam na Bolsa hoje, estão Banco do Brasil ON, com 0,36%, Santander On, com 2,59% e Vale, com 1,09%.

Câmbio

A moeda americana vinha tendo uma sequência de quedas nas últimas sessões, perdendo cerca de R$ 0,70 de cotação em duas semanas. O fechamento de quarta-feira, 27, ficou em R$ 5,2790, menor valor de encerramento desde o dia 17 de abril, quando o pregão ficou com a cotação em R$ 5,2369.

No entanto, já nesta quinta, o dólar tornou a subir e novamente alcançou a casa dos R$ 5,38, na máxima do dia. Ainda hoje, o real foi a moeda que teve o pior desempenho, em uma cesta com outras 34 moedas emergentes. Agora, o dólar acumula queda de apenas 1% no mês, mas ainda acumula uma valorização superior a 30% neste ano.

Nas casas de câmbio, de acordo com levantamento realizado pelo Estadão/Broadcast, o dólar turismo é negociado próximo de R$ 5,50. Há menos de um mês, o valor de troca de moedas estava acima de R$ 6. Ainda nesta quinta, o dólar junho fechou em queda de 

Cenário local

As finanças do País também preocupam o investidor. Segundo dado do  Tesouro Nacional, as contas da União fecharam com rombo de R$ 92,2 bilhões em abril, pior resultado mensal da série histórica iniciada em 1997. No entanto, tudo indica que os gastos devem ser ainda maiores nos próximos meses, devido as medidas para o combate ao coronavírus. Entre elas, está a ajuda de R$ 60 bilhões a Estados e municípios sancionada por Bolsonaro, que para diminuir o impacto econômico, barrou a possibilidade de reajuste aos servidores.

No radar do mercado, também ganhou destaque os novos números do desemprego no Brasil. Após o Cadastro Geral de Empregos e Desempregados (Caged) apontar o fechamento de 1,1 milhão de vagas entre março e abril, dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam um desemprego de 12,6% em abril, um total de 5 milhões de brasileiros que perderam os empregos em meio à crise.

Cenário internacional

Além do aumento das tensões entre as duas maiores potências do mundo, dados econômicos negativos vindos dos Estados Unidos ganharam a atenção do mercado. O Produto Interno Bruto (PIB) do país americano encolheu 5% apenas no primeiro trimestre de 2020, devido ao novo coronavírus. O resultado ainda foi pior que o esperado pelos analistas da Bloomberg, que estivama queda de 4,8%.

Ainda no conflito entre Estados e China, a legislatura do país chinês aprovou uma resolução autorizando seu Comitê Permanente a elaborar uma nova lei de segurança nacional para Hong Kong, assunto que vem deteriorando ainda mais a relação entre os países desde a semana passada. O aval à resolução ocorreu um pouco antes do fim da reunião anual do Congresso Nacional do Povo

O pacote de 750 bilhões de euros anunciados pelo bloco manteve o bom humor da Europa. O Commerzbank comenta em relatório que ainda há questões em aberto e também lembra que todos os países-membros precisarão dar apoio unânime à iniciativa, o que pode ser uma dificuldade. Animou ainda os investidores, a retomada gradual da economia. Em meio à esse cenário, o índice pan-europeu Stoxx 600 fechou com ganho de 1,64%.

Petróleo

Apesar de passar boa parte do pregão em queda, a commodity registrou ganhos no final da tarde, com o aumento do otimismo por conta do arrefecimento das preocupações com excesso de oferta, com produtores concordado com cortes voluntários. Nem mesmo o relatório do Departamento de Energia dos EUA (DoE), que apontou um estoque total de 7,928 milhões de barris no país americano desanimou o mercado.

Em resposta, o petróleo WTI para julho, referência no mercado americano, fechou em alta de 2,74%, a US$ 33,71 o barril. Já o Brent para agosto, referência no mercado europeu, avançou 1,64% a US$ 36,03 o barril.

Bolsas do exterior

A preocupação frente a tensão EUA-China levou as Bolsas da Ásia a fecharem sem sentido único. O Nikkei subiu 2,32% em Tóquiojá os mercados da China continental terminaram o pregão em direções opostas. O Xangai Composto avançou 0,33% e o Shenzhen Composto caiu 0,25%. O Hang Seng caiu 0,72% em Hong Kong, enquanto o Kospi cedeu 0,13% em SeulNa Oceania, a Bolsa fechou o S&P/ASX 200 avançou 1,32% em Sydney

Com as notícias positivas, as Bolsas da Europa fecharam com ganho nesta quinta. Na Bolsa de Londres, o índice FTSE 100 fechou em alta de 1,21%, e em Frankfurt, o DAX subiu 1,06%. Na Bolsa de Paris, o índice CAC-40 teve ganho de 1,76% e em Milão, o índice FTSE-MIB se destacou, em alta de 2,46%. Na Bolsa de Madri, o índice IBEX-35 subiu 0,69% e em Lisboa, o PSI-20 avançou 1,77%.

Já as Bolsas de Nova York caíram no final do pregão. O índice Dow Jones recuou 0,58%, o S&P 500 cedeu 0,21% e o Nasdaq registrou baixa de 0,46%. Entre as ações que mais caíram, estão as do Twitter, com queda de 4,45%, após Trump assinar um decreto que permite que as redes sociais sejam punidas na justiça por determinados tipos de ação. /LUÍS EDUARDO LEAL, ALTAMIRO SILVA JÚNIOR, IANDER PORCELLA, GABRIEL BUENO DA COSTA E MAIARA SANTIAGO

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