Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Dólar alto e preocupação com consumo consciente fazem procura por brechós de luxo aumentar

Lojas de roupas usadas especializadas são alternativas para quem não abre mão de grandes marcas em tempos de cotação de moeda americana desfavorável para os brasileiros

Emily Behnke, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2019 | 11h34

Economia, qualidade, consumo consciente e, claro, a preferência por grifes são os grandes atrativos dos brechós de luxo, que têm crescido e conquistado novos adeptos no Brasil. Impulsionado pela cotação do dólar e pela preocupação com o consumo sustentável, as vendas de segunda mão têm perspectivas positivas em todo o mundo, de acordo com o Relatório de Revenda Anual de 2019 da thredUP – a maior loja de revenda no mercado internacional.

O levantamento, realizado pela empresa de análise de varejo GlobalData, indicou que em 2018 a venda de peças usadas movimentou US$ 24 bilhões no mundo. As projeções são para que esse número dobre até 2023, chegando a US$ 51 bi. A pesquisa mostrou também que 64% das mulheres acima de 18 anos tinham a intenção de comprar um produto usado no futuro –  em 2016 essa porcentagem era de 45%.

O crescimento do setor é perceptível nas vendas do Prettynew, um brechó de luxo brasiliense criado em 2014, que teve aumento de cerca de 35% na vendagem neste ano. “Temos percebido que clientes que costumavam comprar muito em grifes, hoje reduziram bastante e passaram a comprar mais em brechós”, conta Gabriella Constantino Leal, criadora e CEO do Prettynew. “Notamos também que as pessoas estão cada vez mais conscientes com suas compras e aquele antigo 'preconceito' com peças de segunda de mão vem diminuindo.”

Gabriella explica que a definição dos preços dos produtos do brechó se baseia na cotação média semanal do dólar, no preço cobrado por brechós estrangeiros e no estado de cada peça. “Procuramos manter os preços em pelo menos metade ou até mais da metade do valor original.”

O preço salgado dos produtos novos nas lojas não passou despercebido pela clientela. “Cada vez mais as clientes se queixam dos preços das lojas e nem sempre entendem o porquê do aumento”, comenta. Em grande parte, a alta das mercadorias novas em loja se deve ao valor da moeda americana. Em 2018, o dólar terminou o ano com avanço total de 16,92% sobre o real. Neste ano, a moeda já chegou a valer R$ 4,10, em maio.

A cotação da moeda estrangeira tem afetado também o comportamento do turista brasileiro, de acordo com Silvia Scigliano, consultora de tendências e imagem. “As pessoas têm viajado menos e quando viajam têm comprado menos também”, diz. “A gente vê que o crescimento dos brechós e de tudo que a gente pode chamar de revenda está atrelado a um comportamento de consumo sustentável, que afeta muito as novas gerações”, acrescenta.

Para Adely Hamoui, sócia-fundadora do brechó paulista Recicla Luxo o que chama mais a atenção dos consumidores é o apelo das marcas – mesmo no caso de seu brechó, que direciona todo o lucro para associações beneficentes. “Não acho que o principal motivo de compra seja porque a gente faz o bem e com isso eles (os clientes) ajudariam a fazer o bem. Mas, acho que a nossa proposta fideliza o cliente.”

Pelo cunho social, Adely acredita que os consumidores guardem mais o nome do Recicla Luxo. O brechó reverte todo o lucro para instituições parceiras e depende inteiramente de doações. Apesar do cenário econômico desfavorável, ela conta que ainda tem recebido muitas doações. “Essas pessoas que compram fora (do País) são as pessoas que doam. Talvez lá na frente, como as pessoas estão comprando menos, ocorra um efeito de menor quantidade de doações. Por enquanto, ainda não afetou meu estoque”, afirma.

As vendas do Recicla Luxo seguem aquecidas neste ano, com crescimento de 27% em relação a 2018. A adesão de novos consumidores também é motivo de destaque para Adely. “São pessoas que conhecem muito aquilo que estão comprando e, com a alta do dólar, fizeram essa troca e passaram a consumir semi-novos.”

A tendência se repete em outro brechó de luxo de São Paulo, o Lebeh. Segundo Cristiane Rocha, sócia-fundadora, apesar de as vendas ainda não estarem muito fortes neste ano, 100% das compras realizadas foram feitas por novos consumidores cadastrados no site.

No caso do Brechó Agora é Meu, até maio de 2019 o negócio registrou aumento de 40% de novos clientes em relação ao ano passado, segundo Siomara Leite, sócio-diretora. “Quem frequenta shopping e está acostumado com o valor alto das marcas acha o brechó a solução. A diferença de preço é muito grande. Tem peça que chega a ser um décimo do valor original”, disse a empresária.

Para ela, a junção de qualidade e preço são é o que motiva a compra nos brechós. “O que é bom tem em brechó porque o que não é bom já acabou, não dura, não dá tempo de chegar no brechó”, diz. 

A consultora e especialista em mercado de luxo Gabriela Otto reforça esse argumento. Para ela, a qualidade dos produtos do mercado de luxo é o diferencial para essa revenda.“Comprar produtos de segunda mão é uma tendência e é uma consequência da maior valorização de qualidade sobre a quantidade”, afirma.

Segundo a especialista, o caráter atemporal dos artigos de luxo também favorece a revenda em um contexto de moda cada vez mais rápida e rotativa. “O que se observa em pesquisas recentes é que os consumidores em lojas de marcas como Gucci, Chanel e Prada também compram de segunda mão. Isso porque eles entendem que a qualidade daquele produto vale a pena”, explica Gabriela, que é professora na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Ela enfatiza ainda que o mercado de consumo brasileiro está amadurecendo e, com isso, o comportamento de “não precisar de muitas coisas, mas sim de coisas boas chega aqui”.

A qualidade é justamente um dos fatores mais valorizados pela advogada Isabel Massai, consumidora fidelizada do Agora é Meu. Ela compra no brechó paulista desde a sua inauguração, em 2017, e o que mais aprecia é a curadoria e a triagem rigorosa dos produtos, além do preço em conta. “A grande vantagem é que você não tem o valor cheio. Ainda mais nos dias atuais de uma economia que mundialmente sofre ajustes e passa por uma transição”, diz. Isabel também está dentro do perfil mencionado pela consultoria Gabriela Otto, pois faz parte da categoria de pessoas que compram nas lojas de marca e também nos brechós.

Um novo modo de encarar o consumo

As pessoas de 18 a 37 anos, os chamados millenials e os membros da geração Z, são as que mais impulsionam o mercado de segunda mão, de acordo com o levantamento da threadUP. O aumento do consumo de seminovos para essas duas gerações foi de 37% e 46%, respectivamente, de 2017 para 2019. Silvia Scigliano explica esse fenômeno: “A geração Z acaba influenciando todas as outras. Desde que o mundo é mundo todo mundo sempre achou bonito ser jovem. O jovem sempre traz ideias inovadoras”. A pesquisa prevê ainda que em 2019 1 a cada 3 indivíduos da geração Z compre algum produto de revenda.

O aumento do consumo de usados está ligado às características e ao modo de pensar da geração mais nova, que se importa muito com o planeta, afirma Gabriela Otto. “A responsabilidade social e a preferência por marcas sustentáveis estão muito conectadas.” Sobre o tema, o levantamento da threadUP revelou que 59% dos consumidores esperam que as marcas produzam roupas de forma ética e sustentável. “Para a nova geração não é só consumir a marca pela marca, por questão de status ou de ostentar algo, mas ela considera quais são os valores daquela marca e se batem com os seus valores.”

Gabriela destaca ainda que os consumidores têm buscado mais as “associações positivas” das marcas, que seriam as qualidades e benefícios daquela  empresa, em especial relacionada às questões sociais e ambientais. “Os brechós já nascem com essa associação positiva. Não tem a culpa da compra. É como se fosse uma validação de que se pode comprar, que é ético”, explica.

Para a sócia-diretora do Brechó Agora É Meu, os brechós especializados contribuem ainda para uma democratização da moda de alta costura e para o hábito de compartilhar. “Eu acredito muito na sustentabilidade. Não é só o luxo, é o compartilhar. Hoje em dia é cafona você querer ostentar”, complementa Siomara.

Categórica, Silvia, que é também vice-presidente no Brasil da Associação Internacional de Consultoria de Imagem (AICI Brasil), declara: o novo luxo é o luxo sustentável. Ela avalia que a nova geração gosta de comprar roupas usadas e alugar roupas porque prioriza o uso e não a posse. “Consumo consciente é isso. É usar o consumo como um ato político de cobrar das marcas que elas e se posicionem e sejam transparente na produção, nos custos e de como e onde foi fabricado o produto.”

Luxo compartilhado

Artigos de luxo, entre carros, roupas, acessórios e até jatinhos, não escapam da tendência de compartilhamento dos últimos anos, aponta Gabriela Otto. O modelo de negócios de empresas como Uber, Ikea e Airbnb já é replicado para clubes de aluguel de artigos de luxo.

A exemplo do Brechó Agora É Meu as vertentes de uma economia mais compartilhada ficam claras na possibilidade de um “closet de emagrecimento”. Siomara explica que os clientes têm a opção de adquirir um guarda-roupa temporário enquanto estiverem nesse processo de transição. A pessoa paga pelo uso durante determinado tempo e depois as peças retornam ao brechó, como um tipo de aluguel prolongado. O cliente também pode adquirir os artigos e posteriormente o brechó fazer a recompra.

Por causa de diferenciais como esse, o brechó passa por uma fase de expansão – reflexo da onda favorável para o segmento. Em abril, o Brechó Agora É expandiu para o modelo de franquia. Segundo Siomara, o grande volume de mercadorias tornou necessária uma formatação do modelo de negócios. Atualmente mais de 60 interessados se manifestaram com a intenção de adotar um braço da franquia.

De acordo com a 17.ª edição do Estudo de Luxo da Bain & Company, de 2018, o setor de luxo, em termos de produtos novos, tenderá a crescer de 3% a 5% por ano até 2025. Enquanto, o mercado de venda de usados tem perspectivas bem mais promissoras, podendo crescer até 100% até 2023 pelas previsões do GlobalData.

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