Dólar alto faz aumentar o interesse de estrangeiros por empresas brasileiras

Expectativa de queda no preço dos ativos e interesse crescente de investidores externos devem manter alto o nível de fusões e aquisições em 2015, num momento em que companhias nacionais estudam venda de negócios não estratégicos

FERNANDA GUIMARÃES , O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2015 | 02h03

As empresas brasileiras deverão recorrer neste ano à venda de ativos não estratégicos, fora do negócio principal, para buscar liquidez e garantir eficiência em um ano de fontes mais restritas ao crédito. Esses ativos devem atrair especialmente investidores estrangeiros, que buscam oportunidades no mercado brasileiro mesmo com a estagnação da economia local e da crise envolvendo a maior empresa do País, a Petrobrás.

Segundo especialistas, o dólar mais valorizado em relação ao real, na máxima em dez anos, também vem contribuindo para aumentar a atratividade do País. Com a expectativa de queda no preço dos ativos, tanto investidores estratégicos como os financeiros estão olhando oportunidades, o que deve manter os patamares de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) elevados ao longo de 2015 no Brasil. O cenário, no entanto, é de grande aversão a setores regulados.

Só neste mês, a butique de fusões e aquisições Saint Paul Advisors foi procurada duas vezes por empresas que querem vender ativos não estratégicos. "Isso acontece em momentos mais desafiadores, para levantar caixa quando o mercado de capitais não está disponível ou está muito caro. Há também quem queira focar nas atividades mais relevantes para otimizar recursos humanos e financeiros", afirma o sócio da consultoria José Securato.

Num cenário conturbado, as companhias também têm procurado investidores para dar continuidade a projetos que não conseguirão tocar sozinhas. O escritório de advocacia Lobo & de Rizzo Advogados foi contratado recentemente por uma empresa que buscava parceiros para dois grandes empreendimentos. "Ela se capitalizou com o intuito de mobilizar menos capital. Com o crédito mais caro e escasso, essa é uma alternativa", diz o sócio Valdo Cestari de Rizzo.

Na visão de alguns especialistas, os investidores estrangeiros estão mais otimistas do que os locais. Para o sócio da Landmark Capital, Gianni Casanova, uma das explicações para isso está no fato de que os de fora analisam o risco sob o prisma de uma geografia mais extensa, o que acaba permitindo uma tolerância maior. O líder de Private Equity da EY (antiga Ernst & Young), Carlos Asciutti, acredita que a chegada de novos investidores estrangeiros ao Brasil deve ganhar novo impulso diante de mudanças regulatórias, como a lei publicada em janeiro que permite o ingresso de capital estrangeiro em hospitais e clínicas de saúde.

"Em termos imediatos há grande interesse de grupos para começar a olhar os hospitais. Essa acaba sendo uma nova forma de essas empresas se capitalizarem", avalia Ricardo Gaillard, sócio do Souza, Cescon, Barrieu, & Flesch Advogados.

Segundo dados divulgados pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), as aquisições de brasileiras por estrangeiras cresceram tanto em número (de 30,4% para 45,9%) quanto em volume (de 33,5% para 50%).

Olhar do estrangeiro. A entrada de capital estrangeiro na Bolsa neste início de ano é mais uma evidência do interesse dos "gringos" pelo Brasil. No acumulado do ano, até o dia 10 de fevereiro, há um superávit de recursos estrangeiros de R$ 2,961 bilhões na Bovespa. "Para o estrangeiro, a nossa bolsa está interessante depois da forte reprecificação dos ativos e do real desvalorizado", Richard Ziliotto, sócio da family office Taler.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.