Antonio Milena/Estadão
Antonio Milena/Estadão

Dólar alto já afeta preços de alimentos

Moeda americana acumula alta de 10% só no mês de agosto e começa a pressionar preços de produtos importados, como combustíveis e medicamentos, além do trigo; pães e massas devem ser os primeiros a pesar no bolso do consumidor

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

29 Agosto 2018 | 04h00

Correções: 29/08/2018 | 10h00

O dólar voltou a subir nesta terça-feira, 28, sob influência das incertezas da corrida eleitoral, e atingiu a cotação de R$ 4,14 – o segundo maior valor nominal desde o início do Plano Real em 1994. A moeda americana, que está na casa dos R$ 4 desde 21 de agosto, registra alta de 10,2% só neste mês e de 25% no ano. O novo patamar do câmbio já pressiona preços de produtos importados, especialmente combustíveis, medicamentos e de alguns alimentos. 

Como o Brasil vai importar neste ano mais da metade do trigo que vai consumir, sobretudo vindo da Argentina, os pães e massas devem ser os primeiros alimentos a pesar no bolso do consumidor. Entre os preços dos alimentos, esse grupo já subiu 3% no mês passado. 

“A indústria tem, em média, estoque suficiente para até 90 dias. Se o fabricante tem estoque comprado com preço anterior, mais baixo, segura o reajuste e ganha em volume de vendas”, diz Claudio Zanão, da Abimapi, associação dos fabricantes de biscoitos, massas e pães industrializados. Ele estima que os preços devem ficar até 10% mais caros para o consumidor até o fim deste ano.

Para não perder competitividade e também de olho em um consumidor ainda muito resistente a gastos extras, a indústria e o comércio acabam tendo de absorver parte desse impacto do câmbio nos preços.

A gaúcha Chania Chagas, sócia da importadora Empório do Azeite, em Gramado, tentou segurar os preços ao máximo. O estoque de parte dos produtos que a empresa comprou direto do exterior deve durar até o fim do ano, o que vai garantir que ela não tenha de reajustar.

“Mas a gente tomou um susto este mês. As distribuidoras que nos fornecem os demais produtos aumentaram o valor em até 25%, por conta da alta do dólar. Decidimos repassar 15% para o cliente final, para não espantar o consumidor, e vamos ter de absorver parte dos custos.” 

O gerente-geral dos supermercados Hirota, Hélio Freddi Filho, diz que a rede paulista ainda não precisou subir preços de produtos importados, mas poderá fazer isso em breve. “Por enquanto, estamos com o estoque comprado antes das altas do dólar, por isso mantivemos. Mas em 45 dias, os novos carregamentos devem chegar já com os preços mais altos.”

Ele conta que a empresa, que além de azeites e vinhos importados vende produtos orientais, deve tentar diminuir o impacto no repasse ao consumidor negociando mais fortemente com os fornecedores. “Ainda assim, algum tipo de aumento vai acabar ocorrendo.”

Para economistas, no entanto, o impacto do dólar nos preços ainda não deve ser suficiente para tirar a inflação da meta de 4,5% estabelecida para este ano porque a demanda do consumidor continua baixa na saída da recessão. “Claro que o cenário eleitoral obscuro de hoje tem um peso grande, mas é difícil pensar que a inflação rompa o teto da meta em 2018. A depender do resultado da eleição, porém, isso pode ocorrer nos próximos anos”, diz o economista da Tendências Consultoria Marcio Milan. Em 12 meses até julho, o IPCA acumula alta de 4,48%

Para o ano que vem, o Itaú Unibanco estima que um dólar acima de R$ 4,50 seria suficiente para ultrapassar o centro da meta de inflação, mesmo em um cenário de baixo repasse cambial. A meta em 2019 é de 4,25%.

Nesta terça-feira, 28, depois que o dólar bateu os R$ 4,14, o Banco Central anunciou que vai vender, na próxima sexta-feira, US$ 2,15 bilhões com compromisso de recompra, para rolar contratos de dólares que vencem em setembro. Com essas operações chamadas de leilões de linha, o BC atua no mercado para impedir que a oferta de dólares caia e pressione ainda mais o câmbio. 

Nos últimos dias, o BC sinalizou que não vai recorrer a outros instrumentos, como a venda de dólares por leilões ou swaps (operação que equivale à venda da moeda estrangeira no mercado futuro) para segurar a cotação porque a desvalorização do real é decorrência, no mercado interno, da proximidade das eleições e, no exterior, de tensões comerciais. 

Correções
29/08/2018 | 10h00

O texto anterior informava equivocadamente que a previsão do Itaú Unibanco era de que a inflação do ano que vem ultrapassaria o teto da meta, em um cenário com o dólar a R$ 4,50. Na verdade, nesse cenário, a inflação ultrapassaria o centro da meta, de 4,25%. O texto foi corrigido.

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