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Dólar andou. E o Copom?

Não há, por ora, razão para o Banco Central interromper o ciclo de corte de juros

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2019 | 04h00

Após o dólar chegar a superar R$ 4,19 ontem, alguns analistas começaram a perguntar se o Banco Central seguirá reduzindo a taxa Selic ou se na próxima reunião do Copom, marcada para os dias 17 e 18 de setembro, o corte de juros poderá ficar aquém do esperado pelo mercado, de 0,50 ponto porcentual.

Habitualmente, uma valorização rápida do dólar acaba afetando as expectativas de inflação, uma vez que se teme o repasse aos preços de bens e serviços da variação no câmbio, o chamado “pass-through” na expressão em inglês.

Desde a última reunião do Copom, em 31 de julho, a moeda americana registrou forte ganho. A cotação do dólar utilizada pelo Copom para as projeções de inflação no cenário de referência (de taxas de juros e de câmbio constantes) foi de R$ 3,75. Ou seja, o dólar subiu quase 12% até o pico de ontem.

Na mais recente pesquisa Focus, do BC, o consenso dos analistas continua indicando para uma Selic a 5,0% no fim deste ano, mas a aposta para os juros no fim de 2020 caiu de 5,50% para 5,25%.

Já a estimativa para a inflação segue em queda. Para 2019, a previsão do IPCA caiu de 3,71% para 3,65%, enquanto que para 2020 essa projeção recuou de 3,90% para 3,85%. Isso apesar de a estimativa para a cotação do dólar ter subido levemente para o fim deste ano, de R$ 3,78 para R$ 3,80, e ter seguido em R$ 3,81 ao fim de 2020.

Essas projeções na pesquisa Focus reforçam exatamente o argumento daqueles que acreditam que a recente alta do dólar ante o real não deverá ser obstáculo ao ciclo de corte de juros esperado pelo mercado.

A atividade econômica, o emprego, o crédito e o câmbio, entre outros fatores, só são importantes se afetarem as expectativas de inflação.

A valorização recente da moeda americana não afetou, ao menos até o momento, as expectativas de inflação, as quais se encontram bem abaixo das metas para 2019 (de 4,25%) e 2020 (4,0%). Aliás, desde a última reunião do Copom, as expectativas de inflação para este ano vêm caindo apesar de o dólar ter andado significativamente em relação ao real. Uma das explicações para isso é que em um ambiente de expectativas de inflação bem ancoradas pelo BC, em geral, o repasse da variação do dólar para a inflação é menor.

Além disso, uma economia fraca limita o nível de “pass-through” do câmbio. A projeção do desempenho do PIB em 2019 e 2020 voltou a cair na pesquisa Focus. Agora, os analistas esperam um crescimento de 0,80% neste ano e de 2,10% em 2020.

Outro fator importante a se considerar é se a recente turbulência externa terá um efeito inflacionário ou desinflacionário para o Brasil. O dólar vem se valorizando globalmente como reflexo dos temores de uma recessão mundial em razão do acirramento da guerra comercial entre Estados Unidos e China.

A visão de vários analistas, é de que o efeito líquido desse ambiente externo mais adverso é desinflacionário. Nas últimas semanas, houve uma rodada de revisões para baixo das estimativas de crescimento da economia global, em particular na zona do euro, na China e nos Estados Unidos.

Se de um lado a busca por proteção dessa turbulência leva a uma valorização da moeda americana, de outro, as cotações das principais commodities passaram a cair em razão da menor demanda com a desaceleração da economia mundial.

O que importa para a inflação brasileira não é exatamente o valor do câmbio, mas sim o preço em reais dos produtos comercializáveis. À medida que o preço de commodities nos mercados internacionais cai e o dólar sobe, o impacto sobre a inflação brasileira é mais contido.

Assim, como as projeções de inflação e de crescimento da economia seguem sendo revisadas para baixo, apesar da alta do dólar, não há razão para o Copom interromper o seu ciclo de corte de juros. Por outro lado, diante da elevada incerteza do ambiente externo, fica difícil ver como o Copom poderá sinalizar o tamanho desse ciclo no comunicado que acompanhará a sua próxima decisão. Em vez de indicar o quanto vai cortar, o BC deve reforçar que, apesar do câmbio, ainda há espaço para novas reduções de juros.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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