Dólar bate novo recorde e continuará subindo

As cotações do dólar voltaram a bater novo recorde hoje. No fechamento dos negócios, o dólar oficial divulgado pelo Banco Central (BC) ficou em R$ 2,7322. No início de 1999, o dólar atingiu um pico de R$ 2,1647. A partir de então, começou a cair lentamente até agosto de 2000, quando ficou abaixo de R$ 1,80. Desde então, a tendência de alta tem sido contínua, agravada pelo desaquecimento da economia norte-americana, crise argentina e racionamento de energia neste ano.Essa tendência de alta, porém, está se agravando, principalmente depois dos ataques terroristas aos Estados Unidos, no dia 11 de setembro. No curto prazo, segundo os analistas, as cotações devem continuar registrando forte oscilação, guiadas principalmente pelas incertezas em relação aos rumos da economia mundial e, principalmente, dos Estados Unidos."Independentemente dos últimos acontecimentos nos Estados Unidos, o clima já era de desânimo entre os investidores norte-americanos", afirma o diretor de operações com clientes da Lloyds TSB Asset Management, Gilberto Poso. Um dos motivos é que a queda acentuada das bolsas de Nova York criou um clima de "empobrecimento" na população norte-americana, que tem aproximadamente 60% de sua poupança investida em ações, segundo pesquisas de bancos estrangeiros. Neste ano, a Nasdaq - bolsa que negocia papéis do setor de tecnologia e Internet - acumula uma queda de 40,46% até hoje. No mesmo período, o índice Dow Jones - que mede a valorização das principais ações negociadas na Bolsa de Nova York - está em baixa de 22,35%. E no ano passado, as baixas nesta bolsa foram de 38,73% e 6,18%, respectivamente.Retração econômica pressiona dólarA perspectiva de desaquecimento acentuado da economia norte-americana também tem grande influência sobre a confiança do consumidor norte-americano neste momento. Em entrevista ao repórter André Palhano, o economista Affonso Celso Pastore avaliou que a grande preocupação em função dos atentados terroristas para a economia do país é que eles reduzam também o consumo dos norte-americanos.O mercado consumidor nos Estados Unidos representa dois terços da economia do país. Segundo Pastore, antes dos atentados, embora o consumo viesse se comportando relativamente bem, já não apresentava perspectivas tão boas, especialmente por conta da alta taxa de desemprego no país. Poso, do Lloyds Bank, que esperava por uma retomada da atividade econômica nos Estados Unidos a partir do início do próximo ano, com elevação do consumo, já mudou suas perspectivas. "Caso os conflitos tomem dimensões profundas e tenham longa duração, este cenário deve ser postergado para o segundo semestre de 2002", avalia Poso.O diretor de renda fixa da BankBoston Asset Management, Flávio Bojikian, acredita que, se a ação militar dos Estados Unidos for mais restrita, são grandes as chances de que a atividade econômica norte-americana seja retomada mais rapidamente. "Mas, se este cenário não se confirmar, será muito ruim para todos os países, principalmente para os emergentes, que precisam de dólares", explica.Poso destaca que o risco de recessão nos Estados Unidos não foi afastado. Ele lembra que a recessão só existe oficialmente quando o Produto Interno Bruto (PIB) do país registra variação negativa por dois trimestres consecutivos, o que ainda não aconteceu. Mas, segundo ele, mesmo que a recessão não se instale no país, depois dos ataques terroristas, a retomada econômica será mais lenta.Dólar deve ficar pressionado em 2002O estrategista do Deutsche Bank, José Cunha, avalia que os conflitos militares norte-americanos agravam as perspectivas negativas para o dólar também no próximo ano. De acordo com o executivo, mesmo sem este problema, a tendência seria de forte pressão sobre as cotações, em função da elevada necessidade de moeda norte-americana que o País terá. Os cálculos são de que o País precisa de US$ 50 bilhões para fechar suas contas no próximo ano.Poso cita os principais fatores que devem dificultar a captação destes recursos no próximo ano: a perspectiva de redução na entrada de investimentos estrangeiros; a dificuldade que as empresas terão em captar recursos no exterior e a possibilidade de um fraco resultado na balança comercial. O diretor do Lloyds Bank lembra que este cenário será agravado, caso a economia mundial entre em profundo desaquecimento econômico provocado pelos conflitos internacionais."Os investidores estrangeiros já começaram a retirar recursos de países emergentes, onde o risco é maior. Em uma situação de guerra, esta saída deve se aprofundar. Para a rolagem de dívidas ou para a captação de recursos por parte das empresas, a situação também fica pior. O mesmo cenário negativo deverá ser visto em relação às exportações brasileiras", afirma Poso.Argentina e eleições no BrasilBojikian, do BankBoston, lembra que outro fator que deve pressionar as cotações do dólar é a situação da Argentina. O país precisa chegar ao déficit zero e retomar o crescimento econômico. Com o agravamento da questão internacional e a perspectiva de um desaquecimento econômico mundial, a situação do país vizinho fica ainda mais difícil, o que terá impacto direto sobre as condições brasileiras. Isso porque os dois países são emergentes e têm estreitas relações comerciais. Já Cunha, do Deutsche Bank, destaca as eleições presidenciais no Brasil como outro fator que poderá influenciar as cotações do dólar no próximo ano. "A instabilidade no mercado pode aumentar, com oscilações mais fortes das cotações. Porém, tudo vai depender do candidato que estiver na liderança das pesquisas de opinião", avalia.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.