Dólar cai menos no Brasil do que no resto do mundo

Moeda americana se desvalorizou ontem em vários mercados; perda foi de 0,65% ante o real e de 1,36% em relação ao euro

Leandro Modé, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2010 | 00h00

Embora o dólar tenha caído ontem diante do real - 0,65%, para R$ 1,675 -, profissionais do mercado financeiro afirmam que as novas medidas do governo para conter a alta da moeda brasileira, anunciadas na noite de segunda-feira, voltaram a ter impacto no câmbio. O argumento é o de que, no mundo todo, o dólar teve fortes perdas.

No fim da tarde, o euro, por exemplo, subia 1,36% ante a moeda americana. O dólar canadense avançou 1,13% e o australiano, 1,80%. Esses dois países estão no grupo chamado de "commodity currencies". Ou seja, são grandes exportadores de commodities, como o Brasil.

"As medidas do governo fizeram o dólar se desvalorizar menos aqui", afirmou o gerente de câmbio da Fair Corretora, Mário Battistel. "Mas é preciso acompanhar por mais tempo para saber se esse efeito vai continuar."

No mercado futuro, também já houve mudança de posições. Na terça-feira, a aposta de estrangeiros na valorização do real recuou para US$ 13 bilhões (de Us$ 15 bilhões) na BM&FBovespa. Em compensação, os bancos elevaram, na mesma magnitude, a aposta na alta do real no mercado à vista (agora estão com US$ 13 bilhões). Em geral, eles têm posições exatamente opostas no mercado futuro, para evitar o chamado "descasamento".

Lá fora. Para Battistel, a tendência para o dólar no Brasil vai depender mais do cenário externo do que interno. "Esse é o grande problema que eu vejo na política do governo: resolveu atuar agora, quando o dólar perde valor no mundo todo", afirmou. "Por que não interveio mais fortemente quando o real estava destoando do resto?" No ano passado, a moeda brasileira foi a que mais se valorizou ante o dólar.

Dados divulgados pelo Banco Central (BC) mostram que o fluxo cambial foi positivo em US$ 2,4 bilhões na primeira quinzena de outubro. No mesmo período, as reservas internacionais engordaram em US$ 4,2 bilhões. Ou seja, o BC comprou mais do que as "sobras". Em 2010, essa tem sido a tônica da estratégia. Nos anos anteriores, o BC costuma comprar apenas a "sobra" de moeda americana.

Segundo o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco Lima Gonçalves, essas informações comprovam que "não adianta o BC reforçar as compras diárias da moeda para tentar conter a valorização do real enquanto deixar o fluxo cambial entrar livremente no País". Na terça-feira, as reservas internacionais estavam em quase US$ 282 bilhões.

Para Gonçalves, a elevação do IOF (tanto para aplicações de renda fixa como nas margens de operações dos mercados futuros) ajuda a limitar de certa forma o ingresso de recursos. Tanto que, observa, o fluxo financeiro já foi negativo em US$ 180,55 milhões na terceira semana do mês (de 11 a 15), período já sob o efeito do primeiro aumento do IOF (de 2% para 4% na renda fixa a partir do dia 5).

Para um analista que pediu para não ser identificado, o mercado já tem diversas alternativas para burlar as medidas do governo. Por isso, ele avalia que, no médio e longo prazos, a tendência ainda é de valorização do real - a exemplo de outras moedas emergentes. Só que em ritmo provavelmente mais lento do que antes. Isso porque, argumenta, as medidas, de alguma forma, colocam obstáculos à atuação dos estrangeiros. / COLABOROU SILVANA ROCHA

A batalha do câmbio

MÁRIO BATTISTEL

GERENTE DE CÂMBIO DA FAIR CORRETORA

"As medidas do governo fizeram o dólar se desvalorizar menos aqui (ontem). Mas é preciso acompanhar por mais tempo para saber se esse efeito vai continuar."

JOSÉ FRANCISCO DE LIMA GONÇALVES

ECONOMISTA DO BANCO FATOR

"Não adianta o Banco Central reforçar as compras diárias da moeda para

tentar conter a valorização do real enquanto deixar o fluxo cambial entrar

livremente no País."

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