Dólar, cenário externo e futuro justificam Selic estável, diz Copom

A pressão da alta do dólar sobre os índices de inflação, as incertezas com relação ao mercado internacional e a preocupação quanto ao futuro da política econômica do País, a partir de 2003, foram as principais justificativas do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) para manter em 18% ao ano a meta da taxa Selic. De acordo com a ata da reunião da semana passada, os diretores do BC reforçam a avaliação já feita em outras atas de que a inflação este ano irá superar o teto da meta estipulada. A novidade é que, pela primeira vez, os estudos feitos pelo Copom indicam que a inflação de 2003 ficará acima do centro da meta definido, que é de 4%. Considerando uma taxa de juros de 18% ao ano e uma taxa de câmbio de R$ 3,20 por dólar, os estudos feitos pelos diretores do BC indicam que a inflação este ano ficará "significativamente acima do limite superior do intervalo de tolerância" e acima do centro da meta em 2003. As novas projeções, entretanto, não constam da ata. Essa projeção acima do "limite superior" significa dizer que a inflação em 2002 ultrapassará os 5,5%, teto da meta, e ficará acima dos 4% (centro da meta) em 2003. (Gustavo Freire e Renato Andrade)Preços administradosOs diretores do Banco Central afirmam que a revisão para cima das projeções de inflação para 2002 e 2003 também levaram em consideração a revisão dos reajustes previstos para os preços administrados, de 8,8% para 9,3% em 2002, e de 7,6% para 7,9% para 2003. De acordo com os modelos utilizados pelo BC, o comportamento da inflação dos preços livres este ano até agosto está "compatível" com a depreciação cambial observada nos primeiros oito meses deste ano. "Entretanto, tendo em vista a magnitude da depreciação cambial observada ao longo do ano, o coeficiente de repasse da depreciação aos preços pode aumentar", argumentam os diretores na ata. CenárioA contínua instabilidade do cenário internacional também é apontada pelo Copom com um das justificativas para a manutenção da Selic em 18% ao ano. "No mercado financeiro, houve diminuição dos deságios dos títulos públicos e uma evolução positiva na indústria de fundos. No entanto, o clima de incertezas persiste", ressaltam os diretores. "Esse cenário de incertezas reflete não só um ambiente internacional adverso, mas também dúvidas remanescentes por parte de alguns agentes econômicos quanto à coerência da política macroeconômica nos próximos anos", afirmam. "Dessa forma, apesar de a inflação projetada para 2003 estar abaixo da meta, o Copom entende que a manutenção da volatilidade dos mercados financeiros aumenta o risco associado à concretização dessa projeção. Diante disso, o Copom decidiu, por unanimidade, manter a meta para a taxa Selic em 18% ao ano", concluem os diretores.Repasse cambialO Copom ressalta que a possibilidade de aumento do repasse da depreciação cambial para os preços acontece, ainda mais num ambiente de retomada do crescimento. Apesar dessa ressalva, o Copom reafirma no documento que os indicadores de produção do País continuam mostrando a "perda do dinamismo da atividade econômica" brasileira. Mesmo preocupados com a possibilidade de ampliação do efeito cambial sobre preços dentro de um cenário de retomada do crescimento econômico, os diretores do BC ressaltam que uma melhora do nível de atividade econômica do País e das expectativas em relação ao futuro econômico brasileiro permitiriam a valorização do real frente ao dólar. ?Nesse ambiente de retomada do nível de atividade e melhora nas expectativas, seria razoável se esperar uma apreciação do câmbio", argumenta a ata. Mesmo assim, o Copom julgou ser "adequado" adicionar um "repasse cambial represado" para a projeção de inflação de 2003, o que fez com que, pela primeira vez, o Comitê projetasse uma inflação para o próximo ano acima da meta central de 4%, estabelecida pelo governo. Balanço de pagamentosO Copom avalia que o balanço de pagamentos brasileiro tem se ajustado "rapidamente" às condições "adversas" do mercado internacional. Esse clima adverso é caracterizado, segundo os diretores do BC, pela retração do crescimento mundial e pela redução do financiamento externo. "A magnitude do ajuste no balanço de pagamentos, entretanto, não tem sido suficiente para evitar pressão sobre a taxa de câmbio causada pela retração dos financiamentos externos pelas incertezas ainda presentes no mercado relativas à condução futura da política macroeconômica no País", afirmam os diretores na ata. Energia elétricaPara as tarifas de energia elétrica residencial, a projeção do Copom é de um reajuste de 20,6% este ano, dos quais 16,2% já ocorreram. "O valor previsto em setembro é ligeiramente superior ao previsto em agosto (20,1%) e projeta-se um reajuste de 3,8% para os próximos meses", explicam os diretores. Para 2003, o Copom manteve em 20,7% sua projeção para o reajuste das tarifas de energia elétrica residencial. Ainda de acordo com avaliação feita pelo Copom, os diretores do BC ressaltam na ata que nos últimos 12 meses o núcleo de inflação registrou uma variação de 7,17%. "O núcleo de inflação do IPCA, calculado pelo método de médias aparadas simétricas, passou de 0,51% em julho para 0,65% em agosto", argumentam os diretores no documento. GasolinaO Copom projetou um reajuste de 3,3% para o preço da gasolina este ano. A projeção foi feita com base no preço do petróleo no mercado internacional e a alta do câmbio. Até agosto, o Copom vinha projetado uma queda no preço da gasolina. Na ata do mês passado, a estimativa era de uma queda de 0,8% no preço. "Essa revisão é resultado do repasse do aumento do preço internacional do petróleo e do novo patamar de câmbio ao preço da gasolina ao consumidor", justificam os diretores. Para o gás de cozinha, foi mantida a projeção feita em agosto pelo Copom, de um reajuste de aproximadamente 25% este ano para o produto.A íntegra do documento está no site do BC (www.bcb.gov.br).

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