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Mercados globais recuam com nova cepa de coronavírus no Reino Unido

No Brasil, Ibovespa tem perda próxima a 2%; dólar recua após atingir R$ 5,22

Paula Dias e Eduardo Gayer , O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2020 | 10h00
Atualizado 21 de dezembro de 2020 | 18h17

Os mercados globais experimentam forte aversão ao risco nesta segunda-feira, após o Reino Unido ampliar as medidas de restrição diante da identificação de uma cepa ainda mais contagiosa do novo coronavírus. Mais que isso: diversos países decidiram suspender voos de origem britânica, amplificando os temores em relação aos impactos econômicos de tais medidas.

Nesse ambiente, as bolsas europeias fecharam em queda, enquanto o petróleo, que já chegou a tombar cerca de 6%, recuava perto de 4% há pouco. Em Nova York, nem mesmo o acordo por um pacote de US$ 900 bilhões em estímulos, alcançado no fim de semana, impede o recuo dos principais índices acionários.

No Brasil, o Ibovespa chegou a perder mais de 3 mil pontos na mínima do dia. E ainda que o tamanho do tombo tenha diminuído, a forte baixa dos papéis ligados a commodities, como Petrobrás e Vale, além de aéreas, a Bolsa ainda cai 0,88%, na casa de 116 mil pontos. O dólar abriu o dia com um salto de quase R$ 0,15 diante do real, em R$ 5,22, mas foi se acomodando, em meio a perspectivas de aumento da liquidez global com os estímulos fiscais nos EUA.

Assim, a moeda voltou, para algo ao redor de R$ 5,11. Os juros futuros, bastante alinhados ao câmbio, abriram com alta expressiva, mas já no fim da manhã as taxas curtas rondavam a estabilidade, enquanto os longos ainda subiam cerca de 10 pontos, mas bem inferior à disparada de quase 20 pontos no começo do pregão.

Mercados internacionais 

Autoridades de todo o mundo respondem ao novo risco sanitário, diante da mutação do vírus, intensificando medidas restritivas. Enquanto Londres teve o lockdown ampliado, mais de uma dezena de países suspenderam voos de origem britânica. Em um cenário clássico de aversão a risco, as bolsas de Nova York  caem, e as da Europa fecharam em baixa, acompanhadas por tombo do petróleo - por volta de 4% -, baixa dos juros longos dos Treasuries e avanço do dólar ante rivais. O índice Vix, considerado um termômetro do medo no mercado acionário, chegou a disparar mais de 35%. As perdas em Wall Street, contudo, são amenizadas pelo acordo entre governo e oposição para aprovar, ainda nesta segunda, um novo pacote fiscal para os Estados Unidos. 

De acordo com o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, a variante do coronavírus é 70% mais transmissível e, por isso, novas medidas de restrição se tornaram necessárias. "Temos que agir, porque o vírus está se espalhando muito rápido", afirmou o premiê em coletiva de imprensa no último sábado. Johnson convocou uma reunião de emergência após a França decidir fechar a fronteira com o Reino Unido. 

Em Londres, o índice FTSE 100 fechou em queda de 1,73%, a 6.416,32 pontos. Por lá, as ações da IAG, controladora da British Airways, despencaram 7,80%. Já o DAX, de Frankfurt, encerrou o pregão em baixa de 2,82%, a 13.246,30 pontos.

Em Paris, o índice CAC 40 recuou 2,43%, a 5.393,34 pontos, com a ação da Peugeot caindo 2,30%. Hoje, a Comissão Europeia, órgão executivo da União Europeia, aprovou a fusão da montadora Fiat Chrysler Automobiles (FSA) com a Peugeot, segundo comunicado emitido nesta segunda-feira. A transação vai resultar no quarto maior grupo automotivo do mundo, que receberá o nome de Stellantis. A FSA terminou a sessão com perda de 2,19% no índice FTSE MIB, de Milão, que caiu 2,57%, a 21.410,51 pontos.

O Ibex 35, de Madri, por sua vez, cedeu 3,08%, a 7.789,80 pontos, acompanhado pelo PSI 20, de Lisboa, que baixou 2,19%, a 4.658,49 pontos.

Na opinião do Rabobank, novos apertos na quarentena podem ser anunciados em breve e afetar a recuperação econômica global. "O fato da nova cepa também ter sido detectada em outros países, como a Holanda, traz a ameaça de que a resposta do Reino Unido seja replicada em outros lugares", avalia. "Os investidores são forçados a enfrentar a intensificação do vírus muito antes de poderem precificar um retorno à normalidade com a vacina", acrescenta. Importante salientar, contudo, que especialistas garantem que as vacinas experimentais têm capacidade de proteger contra a variante do novo coronavírus. 

Seja como for, o susto com a nova cepa do Sars-Cov-2 induziu à realização de lucros nos mercados acionários globais, também em meio à agenda esvaziada. Às 12h21 de Brasília, em Nova York, o índice Dow Jones caía 1,35%, acompanhado pelo S&P 500 (-1,91%) e pelo Nasdaq (-1,79%). Sensíveis às restrições sanitárias, empresas aéreas caíam em peso, como American Airlines (-3.65%) e Delta Airlines (-3,37%). Na renda fixa americana, diante da maior demanda por ativos seguros, o juro da T-note de dez anos cedia a 0,921% e o do T-bond de 30 anos, a 1,667%. O retorno da T-note de dois anos, por outro lado, conseguia alguma recuperação, mas sem euforia, subindo a 0,125%. 

Ainda que ofuscado pelo noticiário da covid-19, o esperado acordo por um novo pacote fiscal nos EUA consegue atenuar o mau humor em Wall Street. O projeto, que deve ser aprovado pelos parlamentares ainda nesta segunda-feira, ronda US$ 900 bilhões (4% do PIB americano) e prevê, entre outras coisas, US$ 300 bilhões em ajuda para pequenas empresas e US$ 300 para desempregados. De acordo com o secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin, os benefícios começam a ser distribuídos já na próxima semana.

"Este parece ser o último grande pacote fiscal focado na covid-19, supondo que o presidente eleito, Joe Biden, enfrente um Congresso dividido no próximo ano", diz o Goldman Sachs. "Isso provavelmente mudaria se os democratas ganhassem as duas vagas da Geórgia para o Senado, em 5 de janeiro, e chegassem a 50 cadeiras na casa. Nesse cenário, esperaríamos pelo menos mais algumas centenas de bilhões em medidas fiscais adicionais, incluindo ajuda aos estados", completa o banco americano. 

Entre as commodities, o barril de petróleo WTI para fevereiro tombava 3,76%, a US$ 47,40, e o de Brent para o mesmo mês marcava baixa de 3,67%, a US$ 50,34. Já o índice de volatilidade Vix saltava 30,37%, a 28,12 pontos. 

No câmbio, o Dollar Index (DXY) se fortalecia 0,41%, a 90,388 pontos, com o dólar subindo a 103,567 ienes, o euro caindo a US$ 1,2217 e a libra esterlina cedendo a US$ 1,3303. A divisa britânica também é penalizada pela falta de acordo entre Reino Unido e União Europeia para o chamado pós-Brexit, a 10 dias do fim do período de transição. 

Bolsa  

O receio diante da nova cepa do coronavírus atingiu fortemente o Índice Bovespa, que logo nos primeiros minutos de pregão chegou a registrar perda superior a 3 mil pontos, chegando a flertar com o patamar dos 114 mil pontos.

Profissionais de renda variável ouvidos pelo Broadcas justificaram o movimento brusco também em função de um aumento da cautela devido aos feriados dos próximos dias. No início da tarde, a pressão vendedora perdeu um pouco de  tração e o Ibovespa ficou no patamar dos 115 mil pontos, em queda próxima de 2%. 

"A notícia da mutação do vírus piora um pouco a situação, no momento em que ainda se discute a velocidade de produção das vacinas. E em uma época de festas de final de ano, sem que se saiba o que vai acontecer, é normal um movimento de realização de lucros", disse Vítor Miziara, sócio da Criteria Investimentos.

Para ele, também pesou nos negócios de hoje a falta de acordo para o Brexit. Ontem, em meio a um fim de semana crucial de negociações, o gabinete do primeiro-ministro Boris Johnson afirmou a UE "continua a fazer demandas que são incompatíveis com a nossa independência". "Nós não podemos aceitar um acordo que não nos deixa em controle de nossas próprias leis ou águas", disse. 

A aprovação do pacote econômico de US$ 900 bilhões nos Estados Unidos, segundo Miziara, não foi ignorado. Em sua avaliação, a concretização do fato acabou sendo outro gatilho para a realização de lucros, uma vez que as bolsas americanas teriam antecipado o acordo na semana passada.

Entre as ações que fazem parte da carteira do Ibovespa, as maiores quedas ficaram com papéis do setor aéreo e de turismo, com Gol e Azul à frente na maior parte do tempo. Na análise por índices setoriais, o pior desempenho ficou com o IMOB, índice que reúne ações do setor imobiliário, com perda superior a 3%. Nem mesmo setores conservadores escaparam da onda vendedora os índices de Utilities (UTIL) e de Energia Elétrica (IEEX) contabilizaram perdas acima de 2%.

Na contramão estiveram poucos papéis. Foi o caso de CSN ON, que registrou ganhos leves, tendo como referência a alta superior a 7% dos preços do minério de ferro na China. Os papéis de Magazine Luiza inverteram a queda no final da manhã e passaram a subir mais de 1%, após anunciar a compra de 100% da instituição de pagamentos Hub Prepaid Participações por R$ 290 milhões. 

Para Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença Corretora, o mercado ainda tenta entender se um aumento da transmissibilidade da nova cepa do coronavírus levará de fato a um aumento de mortalidade e se o início da vacinação em massa na Europa será suficiente para barrar um aumento de infecções. "A notícia é negativa, mas pode estar superestimada, porque ainda não se tem como mensurar exatamente o que ela significa", afirma.

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