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Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

Dólar continua subindo na Argentina

Mais uma vez, o nervosismo tomou conta da capital argentina. Motivos não faltaram, já que abundaram previsões sobre um eventual fracasso do ministro da Economia, Roberto Lavagna - que viajará amanhã para Washington - nas negociações que retomará com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Além disso, causaram preocupação as notícias sobre as crises no Brasil e no Uruguai. Como se fosse pouco, o presidente Eduardo Duhalde estava fora da capital, e até o fim do dia de hoje ainda não havia sido definido o nome de quem ocuparia a presidência do Banco Central, depois da renúncia de Mario Blejer, a única pessoa de confiança que o FMI tinha na Argentina.Nas ruas da city financeira portenha, milhares de pessoas enfrentaram filas de até dois quarteirões para comprar dólares, o único refúgio que os argentinos consideram seguro em época de crise. A procura intensa da moeda americana causou sua disparada. Nos bancos, que vendem os dólares com a cotação do Banco Central, a cotação foi de 3,70 pesos, o que implica um aumento de 1,9% em relação à sexta-feira passada. Nas casas de câmbio, o dólar terminou a tensa jornada em 3,85 pesos, aumentando desta forma, em 2,9%. Em algumas cidades do interior do país, a cotação do dólar chegou a 3,98 pesos. A alta do dólar aconteceu apesar da intervenção do Banco Central, que perdeu US$ 52,2 milhões. No entanto, as intervenções são criticadas intensamente pelo FMI, que ao mesmo tempo pede ao governo argentino que crie uma "âncora monetária" que detenha a escalada da moeda americana. O ministro Lavagna explicou que a estratégia do governo para conter o dólar será a de "vender reservas, como fizemos até agora".Rumores em Buenos Aires indicavam que Lavagna pediria um novo empréstimo ao FMI, de US$ 1 bilhão, para utilizar unicamente na contenção do dólar.Logo no início da jornada, Mario Blejer, que hoje apresentou sua renúncia à presidência do BC de forma oficial, declarou que no Banco Central calculava-se que o dólar terminaria o ano com uma cotação de até 3,90 pesos. Quando o ministro Lavagna, o maior rival que Blejer tinha dentro do governo Duhalde, foi perguntado se concordava com o ex-presidente do BC, disse um seco "não".Mas, a Fundação Capital considerou a previsão de Blejer muito otimista, e sustentou que em dezembro se aproximará dos 5,00 pesos. As últimas semanas dos meses costumam ser aquelas com a menor compra de dólares, já que os bolsos da população estão vazios. Por este motivo, espera-se que a próxima semana possa ser pior do que esta, já que os argentinos começarão a receber seus salários, e destinar parte deles à compra da moeda americana.Sem contágioHoje, durante um café da manhã com o Grupo Brasil, a associação que reúne 200 empresas brasileiras instaladas na Argentina, o ministro Lavagna sustentou que "falar em contágio é uma coisa que está na moda". Desta forma, tentou convencer uma platéia de empresários brasileiros de que a crise argentina não estava contagiando país algum da região.Segundo ele, a crise na região se deve ao "mau funcionamento" do sistema financeiro internacional. "Falar em contágio é uma forma errada de apresentar as coisas", explicou. Ao longo da tarde, a Argentina foi o único país da região que não foi "contagiado" pela melhoria nos mercados dos países vizinhos. O ministro, que na quarta-feira terá as primeiras reuniões em Washington com representantes do FMI, admitiu que a Argentina somente pedirá uma rolagem das dívidas que o país possui com os organismos financeiros internacionais nos anos 2002 e 2003. O chefe do gabinete de ministros, Alfredo Atanasof, afirmou que a viagem de Lavagna será para "ter reuniões de trabalho". Segundo ele, o ministro "não assinará acordo algum" em Washington. A eventual assinatura de um acordo somente ocorreria depois da vinda de uma nova missão do FMI à Buenos Aires.Portas fechadasDesde janeiro, 50 mil comércios fecharam suas portas de forma definitiva na província de Buenos Aires. Isso representa o desaparecimento de 30% dos comércios que existiam nessa província, a maior e mais rica do país, até dezembro do ano passado. O anúncio foi feito pelo presidente da Confederação Econômica da Província de Buenos Aires, Aladino Benassi, que também afirmou que deste total, 5 mil faliram só no mês de maio. Segundo Benassi, estes comércios proporcionavam, em média, trabalho para um grupo de três a quatro pessoas. "Desta forma, ao redor de 150 mil pessoas perderam seus empregos desde o início deste ano". A Confederação Econômica sustenta que desde janeiro as vendas nos comércios bonaerenses tiveram quedas de até 40%, em comparação com os cinco primeiros meses do ano passado.

Agencia Estado,

24 de junho de 2002 | 18h51

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