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Fábio Alves
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Dólar contra juros

Com a atividade fraca, o impacto da alta do dólar nos preços é mais contido

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2019 | 05h32

Um dos culpados pela rápida valorização do dólar ante o real nas últimas semanas teria sido o próprio Banco Central, na avaliação de alguns analistas. Segundo eles, o Copom deveria ser menos agressivo no atual ciclo de corte da Selic para evitar uma maior depreciação do câmbio e, por tabela, contaminar as expectativas inflacionárias e a parte longa da curva de juros.

Em outras palavras, esses analistas dizem que parte do movimento recente do câmbio se deve a uma queda do diferencial de juros do Brasil com as taxas praticadas no exterior, em especial dos juros americanos, o que torna menos atrativo manter posições em reais. Isso leva à depreciação da moeda brasileira. E se o câmbio depreciar muito, as expectativas de inflação sobem, elevando o prêmio de risco nos contratos futuros de juros de prazos mais longos.

Na sua última reunião, em 31 de julho, o Copom reduziu a Selic em 0,50 ponto porcentual, para 6,0%. Naquele dia, o dólar fechou a R$ 3,8199, mas o BC utilizou a cotação de R$ 3,75 para embasar as projeções de inflação no cenário de referência (com juros e câmbio constantes). Desde então, o dólar ganhou força e encerrou a segunda-feira, por exemplo, a R$ 4,1828, maior nível desde 13 de setembro de 2018.

A aposta majoritária dos investidores é de um novo corte de 0,50 ponto na próxima reunião do Copom, marcada para os dias 17 e 18 deste mês. Na mais recente pesquisa Focus, do BC, o consenso dos analistas aposta numa taxa Selic a 5,0% no fim deste ano, mas há quem acredite que o Copom poderá reduzir os juros até abaixo disso.

Poderá, então, a queda no diferencial de juros do Brasil com o exterior levar à depreciação adicional do câmbio e à pressão de alta na parte longa da curva de juros, como dizem alguns analistas?

Não. O argumento desses analistas é falho. Isso porque a valorização forte do dólar nas últimas semanas não foi apenas em relação ao real brasileiro, mas em meio a um movimento global de fortalecimento do dólar. Com o movimento de aversão ao risco, reflexo do acirramento da guerra comercial entre EUA e China, da crise na Argentina e do temor de uma recessão global, entre outros motivos, o dólar se valorizou ante o euro e outras moedas fortes, além das de países emergentes.

Assim, o que estamos observando não é um movimento idiossincrático de depreciação do real, mas uma tendência global de valorização do dólar. Parte dessa história é o fato de, em tempos de turbulência nos mercados internacionais, a economia americana – e, por tabela, o dólar – ser vista como o porto seguro para os investidores. Outra parte é que o yuan, a moeda da China, sofreu em agosto a sua maior desvalorização mensal em quase 20 anos. Quando os chineses depreciam sua moeda, todos os seus parceiros comerciais também sofrem uma desvalorização cambial de forma quase automática.

É importante ressaltar ainda que, na última reunião do Copom, o mercado já estava precificando um ciclo agressivo de corte de juros. Há quatro semanas, conforme a pesquisa Focus, o consenso das estimativas apontava para uma taxa Selic de 5,25% no fim deste ano. Não será, portanto, uma surpresa para o mercado se o Copom reduzir os juros para próximo de 5,0%. Ou seja, a precificação do ciclo de corte de juros já aconteceu antes de o Copom baixar a Selic em 0,50 ponto.

Além disso, uma depreciação do câmbio só leva a um aumento das expectativas de inflação de médio prazo quando essas expectativas não estão ancoradas e quando não há uma postura fiscal que dê suporte à política monetária. Foi assim em 2012, quando o BC reduziu a Selic para o então patamar mínimo de 7,25%, num ambiente de política fiscal expansionista, gerando pressão sobre as expectativas inflacionárias.

Não é o caso agora, especialmente com a aprovação da reforma da Previdência. Tanto que, ao longo dos últimos dois meses, mesmo com o mercado reduzindo suas apostas para o nível dos juros no fim deste ano, as expectativas inflacionárias caíram. E num ambiente de atividade fraca, o impacto da alta do dólar nos preços é mais contido.

*É COLUNISTA DO BROADCAST

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