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Queda de Moro e risco de impeachment fazem dólar disparar e Bolsa desabar

Temor do mercado e de economistas é que queda do PIB no ano chegue a 9% com nova crise política aberta pelas acusações do ex-ministro

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2020 | 09h06
Atualizado 25 de abril de 2020 | 10h16

O pedido de demissão do ministro Sérgio Moro (Justiça), em meio a acusações graves contra o presidente Jair Bolsonaro, abriu nova crise política no governo e azedou de vez o humor do mercado financeiro, que já vinha de uma semana turbulenta e fechou ontem com economistas e analistas discutindo abertamente os cenários para economia com a possibilidade de mais um impeachment de presidente da República.

O dólar que já vinha num movimento de alta diária fechou cotado a R$ 5,66, valorização de 2,40%, o nono dia consecutivo de ganhos para a moeda dos EUA. No ano, o dólar acumula alta de 41,12% e o real é a moeda com pior desempenho, considerando os principais mercados, em ranking compilado pela Wagner Investimentos. 

No mercado, já se fala em um dólar no patamar de R$ 6, com pouco espaço para um recuo abaixo R$ 5. A Bolsa também deve sofrer bastante com a volatilidade nos próximos dias, embora a visão geral é de que os ativos brasileiros já estão num nível próximo do piso. Tudo isso, no entanto, vai depender do tamanho da recessão brasileira em 2020, que, segundo as previsões, deve ser bem forte. 

Segundo a economista Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics, nos Estados Unidos, Jair Bolsonaro está mais perto do que nunca de um impedimento, e esse cenário pode levar o País a uma queda recorde de Produto Interno Bruto (PIB). “Pode cair até 9% neste ano”, afirma. “A queda de Moro deixa Bolsonaro em uma situação muito difícil”, diz.

O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, também vê o impeachment do presidente no radar. A depender da duração da crise, estima, não dá para descartar uma queda de 7% a 8% do PIB este ano, assim como o dólar a R$ 6, especialmente se houver a saída de outros ministros. “Enquanto não tiver solução para a crise, podemos ver a economia sangrando, como foi com a Dilma (Rousseff, ex-presidente)”, afirma.

Para o diretor-geral do banco Indosuez, Fabio Passos, o cenário em Brasília tende a ser de baixa governabilidade e, nos próximos dias, o mercado deve monitorar de perto o desenrolar das negociações entre Bolsonaro e o bloco de deputados que compõe o chamado Centrão. “O que mais me chamou a atenção hoje foi a curva de juros. O Banco central fez oito leilões e tentou segurar um pouco o câmbio. A Bolsa acabou voltando um pouco. Mas os juros explodiram”, diz. O DI para janeiro de 2022 saltou 62 pontos-base, a 4,17%. /COM THAÍS BARCELOS E CÍCERO COTRIM

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‘Desemprego vai à Lua agora', diz Monica De Bolle

Para economista, crtises políticas como a que resultou no pedido de demissão de Sérgio Moro do ministério da Justiça pode fazer com que PIB cai até 9%

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2020 | 10h10

A saída do ex-juiz Sergio Moro do governo deixa o presidente Jair Bolsonaro ainda mais isolado e com uma base de apoio reduzida para o desafio de enfrentar a crise do coronavírus. Ao considerar esse cenário, a economista Monica de Bolle, pesquisadora sênior em Washington do Peterson Institute for International Economics, projeta um quadro para a economia do País com forte recessão e impactos pesados na curva de desemprego. 

“Eu já trabalhava com um cenário de queda de PIB de 6% a 9%, sendo 6% com o governo fazendo alguma coisa e 9% com ele não fazendo quase nada para resolver os problemas. A saída de Moro deixa o governo mais próximo de não fazer nada”, afirma. 

Para Monica, países que têm atuado de forma organizada para reduzir os impactos da crise sanitária na economia já devem enfrentar uma forte recessão, além de precisar de algum tempo para retomar a economia nos patamares pré-coronavírus. No Brasil, a falta de foco e as crises pelo caminho, como a que tomou Brasília ontem, devem tornar tudo mais imprevisível. 

“O Brasil está no começo da crise, longe de conhecer o pico da curva de infecção. Fica muito difícil fazer previsões nesse cenário. Mas, com o que se vê do governo, o desemprego, que já seria alto, agora vai à Lua, acima dos 20% com toda a certeza”, afirma a economista.

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‘Impeachment não é problema, mas solução', afirma ex-presidente do BC

Para Schwartsman, Bolsonaro está criando todas as condições para o fim do governo antes de 2022

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2020 | 10h15

Se avançar, a discussão do impeachment do presidente Jair Bolsonaro, atualmente, seria melhor para o mercado e para as perspectivas da economia do que a manutenção do atual dinâmica de Brasília, com o presidente criando uma nova crise por semana em meio ao avanço da pandemia do coronavírus. Essa é a opinião do economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central (BC).

“O impedimento de Bolsonaro não seria um problema, mas uma solução”, afirma. Para o economista, a saída do ex-juiz da Lava Jato pode enfraquecer o apoio político ao governo, já que boa parte dos simpatizantes de Bolsonaro tinha referência na figura de Moro. “A gente já viu esse filme no passado. O presidente perde governabilidade e vira um zumbi. Mas quando o impeachment avança, o mercado já coloca isso no preço dos ativos e tudo melhora, melhoram a perspectiva da economia, as pessoas ficam mais calmas”.

Para Schwartsman, Bolsonaro está criando todas as condições para o fim do governo antes de 2022. “No meio de uma pandemia que está causando essa crise toda que estamos vendo, o presidente vai lá e arruma uma confusão monumental com o ministro mais popular que ele tem. Eu não consigo enxergar racionalidade nisso”, destaca.

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