'Dólar em alta é inflação na veia'

Para economista, como 70% das importações são de componentes e insumos, a alta vai direto para o custo de produção

Entrevista com

LUIZ GUILHERME GERBELLI, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2013 | 02h24

O economista Nathan Blanche acredita que a alta do dólar trará um impacto rápido na inflação. Ele diz que o efeito da desvalorização do real ocorre não só pela sinalização da política econômica dos EUA, mas também pelo baixo desempenho do fluxo cambial. "Esse fluxo vem andando de negativo ao positivo muito perto. É resultado, na prática, do que vem ocorrendo com o investimento e da balança comercial, que está negativa", disse. A seguir, trechos das entrevista:

Qual o impacto dessa alta do dólar na inflação?

O Brasil continua com demanda aquecida, pleno emprego e renda real subindo, apesar de a renda real em dólar ficar negativa se o câmbio continuar assim. Estamos num período de crescimento acima do PIB, pelo que a gente viu da balança comercial. Ou seja, vamos continuar importando. Não tenho dúvida que essa pressão vá continuar. De maio para cá, a moeda desvalorizou 10%, o impacto que o BC calcula é de meio ponto porcentual na inflação. Portanto, ao colocar uma taxa de meio ponto em cima de uma expectativa de inflação entre 5,8% e 6,0%, a inflação vai para o teto da meta. Não há milagre. Um País, como o nosso, que depende do crescimento de poupança externa, não pode nem sonhar com uma política de juros para baixo e câmbio para cima. Só se o governo tivesse um superávit primário entre 3,5% e 4%. Vou te falar como homem de mercado, e não como consultor: dólar é inflação na veia. 70% das importações são de insumos e componentes, então vai direto para o custo de produção.

E se o governo sinalizar uma política monetária mais dura?

Se ele sinalizar para o mercado um choque monetário, com uma taxa de juro real de 3% a 4%, a política monetária se acomoda no médio prazo e isso vira as expectativas. E o governo vai dar um choque de política monetária se 2014 é ano de eleição? Se ocorrer essa decisão, é levar o Brasil em 2014 para um crescimento zero ou negativo. Hoje, dentro da politica atual de elevação de juros e com o Focus prevendo a Selic a 9% ou 9,25% - certamente com a inflação beirando 6,5% -, há uma taxa de juros real muito baixa.

Como deve se comportar o Fed daqui em diante?

Em relação ao dólar, nem o Fed nem o Ben Bernanke certamente vão querer que o dólar continue se apreciando tanto, porque isso tem um impacto deflacionário de um lado, mas tem uma expansão monetária muito grande dentro dos Estados Unidos. De fato, ele vai ter de voltar a vender papel, porque senão a taxa de juros vai para o céu. Não vai poder irrigar o mercado como está fazendo agora.

Qual a sua expectativa para o cenário atual?

Eu não estou otimista com relação à economia em 2014 ou até no médio prazo. Eu não vejo uma solução de curtíssimo prazo. Eu vejo o governo brasileiro forçado a tomar decisões para desacelerar o ritmo da expansão fiscal e uma política monetária mais apertada. Eu não vejo um cenário azul para a economia. Lá fora não vejo um cenário em que o dólar continue a se valorizar muito. O Bernanke não vai aguentar, e, nesse processo, é capaz de o câmbio voltar. Internamente, o meu otimismo é um câmbio de R$ 2,10 para esse ano e uma inflação de 5,8% a 6,0%. Isso, se forem tomadas medidas que diminuam o consumo público, e uma política monetária com uma taxa de juros reais de, no mínimo, 2%.

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