JF Diorio/ Estadão
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ESG

Coluna Fernanda Camargo: É necessário abrir mão do retorno para fazer investimentos de impacto?

Bolsa brasileira fecha em queda de 12,17% e dólar alcança R$ 4,72 em dia de caos no mercado

Circuit breaker foi acionado de manhã, mas à tarde o Ibovespa acelerou perdas, com piora no exterior; dólar se aproximou de R$ 4,80 e BC fez leilões que somaram US$ 3,5 bilhões

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 09h13
Atualizado 09 de março de 2020 | 22h22

Numa economia já debilitada por causa da disseminação do novo coronavírus, a decisão da Arábia Saudita de aumentar a produção de petróleo, iniciando uma guerra de preços com a Rússia, teve um efeito devastador no mercado e deteriorou as expectativas de crescimento global. Com a previsão de que a crise vai se prolongar além do calculado inicialmente, o risco de uma recessão global ficou mais evidente, com reflexos no mercado brasileiro.

A Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad) afirmou nesta segunda-feira, 9, que o coronavírus levará alguns países à recessão e fará com que o crescimento global em 2020 desacelere para menos de 2,5%. A agência prevê queda de US$ 2 trilhões na receita mundial.

O cenário gerou pânico global e provocou tombos históricos com a fuga dos investidores a ativos de risco. As principais Bolsas mundiais tiveram suas operações suspensas por um mecanismo chamado de circuit breaker – uma proteção à volatilidade excessiva em momentos atípicos de mercado. 

No Brasil, o mecanismo foi acionado quando a Bolsa bateu os 10% de queda no pregão. A última vez que isso havia ocorrido foi em 2017, quando o ex-presidente Michel Temer foi acusado pelo empresário Joesley Batista de integrar um esquema de corrupção.

Apesar da parada técnica, o movimento de aversão ao risco continuou. A bolsa brasileira fechou em queda de 12,17%, em 86.067 pontos, batendo novos recordes. Foi a maior queda porcentual desde 1998 – quando a Rússia decretou moratória. 

No mercado mundial, o comportamento das Bolsas não foi muito diferente. Os índices Dow Jones, Standard & Poor’s 500 e Nasdaq, que também tiveram o circuit breaker acionado, fecharam em queda de mais de 7% e o índice de volatilidade VIX chegou a saltar mais de 30%. Na Europa, as Bolsas também tiveram retrações acima de 7% e, assim como nos Estados Unidos, a fuga do risco provocou corrida para a renda fixa. 

Pressionado pela aposta do mercado de mais afrouxamento monetário pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), o dólar recuou ante moedas rivais, mas avançou sobre divisas emergentes e ligadas a commodities. No Brasil, o dólar avançou 1,95%, para R$ 4,72, apesar de o Banco Central injetar US$ 3,5 bilhões no mercado, em duas vendas de moeda à vista – tipo de leilão que não se fazia desde dezembro. Hoje a autoridade monetária deve vender mais US$ 2 bilhões.

Câmbio

No ano, o dólar acumula alta de 18% ante o real. Mas, com a guerra de preços do petróleo, nesta segunda o rublo da Rússia passou a ser a moeda com pior desempenho ante o dólar, que sobe 21% no país. Só nesta segunda, a divisa dos EUA disparou mais de 9% no mercado russo. O petróleo teve a maior queda (25%) desde 1991, na Guerra do Golfo, carregando pelo caminho ações de petroleiras. As ações ordinárias da Petrobrás despencaram 28,5% e as preferenciais, 28,3%.

“Num momento em que o mercado parecia começar a assimilar o coronavírus, surge a guerra de preços do petróleo. Isso é muito preocupante, pois pega a economia fragilizada”, afirma o estrategista-chefe da Davos Financial Partnership, Mauro Morelli. Segundo ele, no Brasil, a expectativa é de novas revisões do PIB para 2020. Depois do resultado de 2019, os números já estavam abaixo de 2%. Esse número deve mudar ao longo do ano diante da redução da confiança do consumidor e do investidor.

A piora do câmbio foi marcada por forte deterioração do risco Brasil, medido pelo Credit Default Swap (CDS) de cinco anos, que subiu de 144 pontos na sexta-feira para 207 nesta segunda. Com isso, atingiu pela primeira vez no governo de Jair Bolsonaro a marca de 200 pontos.

4 perguntas para... 

Carlos Kawall, diretor do ASA Bank e ex-secretário do Tesouro Nacional

1. Há risco de recessão?

Sim. A economia global pode entrar novamente em uma recessão, com pelo menos um trimestre de queda nos Estados Unidos e isso vai nos afetar.

2. Ou seja, não tem como não se contaminar?

Não. É claro que nossa economia depende mais do mercado doméstico; não somos exportadores relevantes de petróleo do ponto de vista líquido; não somos uma economia movida a petróleo; e não temos tanta exposição ao comércio internacional. Mas temos conta de que a cada 0,5 ponto porcentual a menos de crescimento na China, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresce 0,2 ponto porcentual a menos. Se a China crescer um ponto porcentual a menos, nosso crescimento já vai para baixo. Isso já havia nos levado a cortar o PIB do Brasil para 1,5% e hoje podemos falar que pode ser menos do que isso.

3.O cenário doméstico também não é muito bom?

O PIB do quarto trimestre já mostrou desaceleração do crescimento. No primeiro trimestre, o consumo não foi tão bom e os indicadores não estão tão fortes. Há questões mais de curto prazo que já tinham gerado um viés de PIB mais fraco. Mas era algo que estava circunscrito no curto prazo. Mas com esse tipo de impacto na economia global, a probabilidade de a gente conseguir acelerar muito ao longo do ano diminuiu muito.

4. O País tem instrumentos suficientes para conter os efeitos dessa crise?

Temos espaço na política monetária, nos compulsórios e no mercado de câmbio (venda de swaps/reservas). Não temos espaço na política fiscal, a não ser que avancemos nas reformas, em especial a PEC emergencial, que abriria algum espaço para o aumento do investimento público. /RENÉE PEREIRA, LUIS LUÍS EDUARDO LEAL e ALTAMIRO SILVA JUNIOR e RENATO JAKITAS

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