Ivan Alvarado/Reuters
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Dólar e euro com o mesmo valor: o que isso significa e por que é importante

Nesta quarta-feira, 13, a moeda europeia chegou a operar abaixo de 1 dólar, a US$ 0,9998. o menor nível em 20 anos, mas depois se recuperou. Às 17h17, o euro operava a US$ 1,005 – quase nada acima da paridade

Aaron Gregg, Ellen Francis e Bryan Pietsch, Washington Post 

13 de julho de 2022 | 18h07

O euro e o dólar americano estão sendo negociados a uma taxa de quase 1 para 1 pela primeira vez em quase duas décadas, quando a moeda europeia estava em sua infância.

O euro vem perdendo terreno em relação ao dólar desde o início do ano, quando oscilou em torno de US$ 1,13; em meio a uma agressiva iniciativa de combate à inflação do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), juntamente com os transtornos globais mais amplos provocados pela invasão da Ucrânia pela Rússia. Nesta quarta-feira, 13, a moeda europeia chegou a operar abaixo de 1 dólar, a US$ 0,9998. o menor nível em 20 anos, mas depois se recuperou. Às 17h17, o euro operava a US$ 1,005 – quase nada acima da paridade.

O dólar mais forte pode diminuir o preço das commodities, como grãos, e talvez aliviar a inflação implacável que fez com que as despesas domésticas e comerciais disparassem. Mas especialistas dizem que o recuo do euro também dá pistas de um ritmo mais lento no comércio global, aumentando as preocupações com uma recessão.

Aqui estão algumas das maneiras pelas quais isso pode afetar consumidores, empresas e viajantes.

Por que o euro está caindo em relação ao dólar?

É uma combinação de fatores, o principal deles é a guerra na Ucrânia. O conflito prejudicou o fornecimento de alimentos e fez com que os preços da energia subissem em todo o mundo, impactando especialmente a União Europeia, onde muitos países dependem bastante das importações russas de combustíveis fósseis.

Como parte de uma campanha de pressão contra seu vizinho do leste, os 27 países da União Europeia abandonaram aos poucos o petróleo russo, enquanto Moscou reduziu abruptamente os fluxos de gás. Isso aumentou os gastos dos europeus, que já estavam se recuperando da pandemia.

Nos EUA, o Fed tem aumentado de forma agressiva as taxas de juros, pressionando os rendimentos dos títulos do tesouro e tornando as cédulas verdinhas mais atraentes para os investidores do que o euro. O banco central americano elevou as taxas de juros três vezes em 2022 e sinalizou que tem mais quatro aumentos planejados como parte de sua estratégia para controlar a inflação.

O Banco Central Europeu também deve subir as taxas de juros para trazer a inflação de volta à meta de 2%, mas em um ritmo mais lento que os EUA: com um aumento planejado de 0,25% na taxa de juros em julho, enquanto se espera amplamente que o Fed eleve sua taxa em 0,75%, assim como fez em junho.

O dólar é considerado um porto seguro e ganhou força conforme os investidores lidam com um campo de atuação incerto na Europa e em outros lugares.

“Esperamos que o dólar continue a se beneficiar de seu status de porto seguro para investidores internacionais e interesses comerciais, sobretudo considerando a situação mais precária da economia da Europa”, escreveu o economista-chefe da RSM, Joe Brusuelas, no final de abril, à medida que o dólar ganhava valor.

O que a paridade significa para o euro?

Apesar das preocupações, alguns analistas descreveram a paridade euro-dólar como um marco “psicológico” que não seria necessariamente um divisor de águas para a moeda, que já estava bem abaixo de seu pico de 2008, quando ficou próximo de US$ 1,60.

Entretanto, “vale a pena esperar que a Europa não escape mais de garantias de mercado suaves e ações modestas, portanto a pressão sobre a moeda única talvez continue no futuro próximo”, disse Alex Kuptsikevich, analista sênior da plataforma de negociação de moedas estrangeiras FxPro.

Ele observou que os bancos centrais e os formuladores de políticas no continente serão “forçados a responder” às preocupações de desvalorização.

“O impacto psicológico é claramente importante e os investidores vão estar muito focados” no mercado, nos fluxos e na liquidez, de acordo com uma análise do Deutsche Bank Research, que disse na terça-feira não prever “um perfil de risco incomum” devido à paridade.

O que isso significa para as empresas e os consumidores?

A mudança nas moedas globais pode ter um efeito profundo nas empresas que vendem seus produtos no exterior ou dependem de matérias-primas estrangeiras para produzi-los. Também pode impactar o preço de commodities, como grãos, que têm uma relação direta com os consumidores.

As empresas europeias que vendem suas mercadorias no exterior podem achar que a moeda mais fraca torna suas exportações mais atraentes, porque a moeda do comprador será mais valiosa em comparação com o euro.

Mas quaisquer ganhos com as exportações podem ser ofuscados pelo aumento da inflação nos 19 países que usam o euro, o que significa que quaisquer produtos importados ou matérias-primas se tornarão mais caros. As oscilações das taxas de câmbio podem criar vencedores e perdedores, dependendo da combinação de importações e exportações.

Alguns especialistas interpretam a moeda mais fraca como um sinal de crescimento econômico mais lento para a Europa.

Com a queda do euro, “está se tornando cada vez mais claro que a zona do euro está caminhando para uma recessão, mesmo com as condições financeiras mais apertadas que os EUA ou o Japão”, tuitou Robin Brooks, economista-chefe do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês).

Nos EUA, um dólar fortalecido apresenta um conjunto diferente de problemas e oportunidades.

Isso poderia prejudicar as exportações americanas no exterior, porque o poder de compra dos importadores estrangeiros está enfraquecido. Também afetará as conversões de moeda nos lucros repatriados para as multinacionais americanas, disse o diretor de investimentos da Comerica Wealth Management, John Lynch, em nota na terça-feira.

Commodities como grãos e metais de categoria industrial tornaram-se mais caros recentemente, porém um dólar mais forte pode ajudar a conter os preços, disse Jay Hatfield, CEO da Infrastructure Capital Management.

“O dólar forte reduz os preços das commodities globais, já que a maioria das commodities são precificadas em dólares”, disse Hatfield em nota. “Prevemos que a inflação começará a cair substancialmente no segundo semestre, conforme os preços das commodities sejam refletidos nos índices de preços.”

O que os valores do euro e do dólar significam para os turistas?

Vai ficar mais caro para os europeus e para as pessoas que ganham salários em euros viajar para o exterior e gastar em dólares americanos.

Para os americanos que consideram a Europa como um destino de viagem popular, a proporção de quase 1 para 1 significa que eles não só terão mais facilidade em decifrar os preços, mas, também, maior poder de compra ao visitar destinos da zona do euro como França, Alemanha, Espanha, Itália e Grécia.

A dinâmica da moeda também poderia beneficiar os americanos que viajam para fora da zona do euro. O dólar americano está em alta em comparação ao peso mexicano, aos dólares canadenses e australianos, e o won sul-coreano no último mês.

Para os brasileiros, vai ficar mais barato viajar para os países da zona do euro na Europa e fazer compras em euro – embora as cotações tanto do dólar quanto do euro estejam elevadas em relação aos últimos anos. A diferença entre os preços de produtos na Europa e nos EUA tende a diminuir. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA, COM REPORTAGEM DO ESTADÃO

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