Dólar evidencia estratégia de proteção de dívidas

A instabilidade do real tem exigido esforço dos diretores das empresas. Além de observar o desempenho operacional das companhias, os investidores estão bastante atentos à estratégia de gerenciamento das dívidas. A administração dos vencimentos tem papel fundamental nos balanços, que podem sair de lucro para prejuízo por causa das perdas com impacto cambial. Especialistas apontam que um endividamento bem controlado evita fortes oscilações nas despesas financeiras, tornando-as mais estáveis. Para tanto, operações de mercado que cubram as responsabilidades em moeda estrangeira, ou parte delas, conhecidas como hedge, são fundamentais. "Quanto maior a diferença entre a moeda da receita da empresa e a da dívida, mais necessária será essa proteção", diz o chefe de análise do Pactual, Ricardo Kobayashi. Na prática, isso quer dizer que é importante para as companhias buscar recursos na mesma moeda do faturamento. Sadia e Aracruz têm vencimentos em moeda estrangeira e, ao mesmo tempo, possuem significativa receita externa. Ambas utilizam o faturamento internacional como proteção "natural" às responsabilidades em dólar. Já a Telemig Celular precisa de instrumentos financeiros para fazer o hedge, pois seus recebimentos são em reais e boa parte dos vencimentos é internacional. O presidente da operadora, João Cox, contou que 78% de sua dívida líquida está protegida. No caso da Aracruz, a opção da empresa é por não proteger o endividamento, quase todo em moeda estrangeira, com ferramentas de mercado, pois suas vendas são externas. A Sadia, além de contar com o comércio internacional, vem de um longo processo de troca das responsabilidades em moeda estrangeira por reais. Segundo o diretor financeiro e de relações com investidores, Luiz Gonzaga Murat, desde que o Brasil adotou o sistema de câmbio flutuante (1999), a empresa vem mudando o indexador de suas responsabilidades. Em janeiro de 2001, a dívida líquida da Sadia em reais era de R$ 75 milhões e foi ampliada para R$ 580 milhões, no fim de junho deste ano. No mesmo período, os vencimentos em moeda estrangeira foram reduzidos de US$ 783 milhões para US$ 331 milhões. Segundo o chefe de análise da Itaú Corretora, Reginaldo Alexandre, as companhias não devem buscar ganhos com essas aplicações em hedge. A função única das operações é proteger o fluxo de caixa. O analista-chefe do BNP Paribas, Marcos Elias, comentou que mesmo na administração financeira é importante pensar no presente. "Quanto pior a estrutura de capital da empresa, maior será seu custo."

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