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Dólar fecha a R$ 3,597, maior cotação desde maio de 2016; Bolsa sobe 1,58%

Valorização do dólar nas últimas semanas está ligada ao cenário externo de perspectiva de alta dos juros nos EUA e das tensões geopolíticas

Ana Paula Ragazzi e Paula Dias, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2018 | 15h20
Atualizado 09 Maio 2018 | 18h48

Apesar de o dólar ter se enfraquecido em relação à maior parte das moedas globais no pregão desta quarta-feira, ele continuou a mostrar alta volatilidade em relação ao real. No fechamento, a moeda subiu 0,82%, para R$ 3,5977, maior preço desde 31 de maio de 2016. Durante a sessão, chegou a sair a R$ 3,61. Já a Bolsa fechou o dia em alta significativa de 1,58%, aos 84.265,49 pontos, impulsionada pela alta nos papéis da Petrobrás.

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O câmbio está no centro do debate depois que o mercado, a partir da puxada de alta do dólar nas últimas semanas, muito ligada ao cenário externo de perspectiva de alta dos juros nos EUA e das tensões geopolíticas, passou a especular que o Banco Central poderia rever decisão já bastante sinalizada de reduzir novamente os juros na reunião do Copom da próxima quarta-feira.

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Nesta terça-feira, em entrevista à GloboNews, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, não mudou o discurso e repetiu que o BC olha o juro do ponto de vista de inflação e de atividade econômica. Alguns operadores disseram que esse fato poderia justificar o nervosismo no pregão de hoje, ou seja, o BC teria frustrado a expectativa criada pelo próprio mercado.

O fato é que o impacto do câmbio nos juros está atraindo todas as atenções. Nesta quarta, diversos economistas e especialistas apontam razões para o BC mexer nos juros ou deixá-los como estão quase que numa ausência de consenso no mercado.

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A Verde Asset Management, em carta a seus cotistas, foi enfática ao afirmar que a estratégia do Banco Central de reduzir os juros está por trás da forte alta do dólar nas últimas semanas. "O BC cortou o juro mais do que o esperado, e em sua última reunião, inclusive surpreendeu o mercado com uma sinalização de que poderia se estender nesse processo mais ainda. De certa maneira, foi o grão de areia que desestabilizou o castelo e provocou uma reação do mercado na direção da compra de dólar". O texto refere-se ao fato de que esses cortes diminuíram o diferencial de taxas de juros brasileiras e americanas, o que barateou o custo do hedge e trouxe demanda extra para a moeda no Brasil. A expectativa dos gestores da Verde Asset é que as coisas se acalmem no mercado de câmbio, uma vez "que o próprio BC notou os riscos que está correndo e resolveu intervir", aumentando a oferta de swap. "Devemos ver a moeda negociando numa faixa entre R$ 3,30 e R$ 3,60 daqui até agosto, quando o tema eleitoral passar a dominar", de acordo com o relatório.

Para o economista da Mapfre, Luis Afonso Lima, a pressão no câmbio continua vindo das operações com o dólar futuro. "Vivemos um período longo de cotações mais estáveis e muitas empresas nem estavam fazendo o hedge  porque não viam necessidade. Agora, com toda essa volatilidade e a queda nos custos de fazer essa operação, muitas das empresas estão já fazendo ou se planejando para fazer o hedge. Uma coisa vai alimentando a outra", afirmou. É por essa demanda extra que o câmbio continua apreciando, apesar do fluxo fortemente positivo nos últimos meses. De acordo com dados do BC, o fluxo cambial em abril foi positivo em US$ 14,4 bilhões. De 30 de abril a 4 de maio, o fluxo foi positivo em R$ 1,6 bilhão, com saída de US$ 256 milhões no canal financeiro e ingresso de R$ 1,858 bilhão no comercial.

O colunista Fabio Alves, do Estadão/Broadcast, destacou esse debate sobre os juros hoje, depois da fala de Ilan Goldfajn. No momento, com o câmbio no patamar em que está, não se percebe impacto nos indicadores de inflação. Um economista ouvido pelo colunista fez a ressalva de que "logo, os agentes começam a perceber esse novo patamar [do câmbio] como permanente e, então, mesmo que ligeiramente, repassam parte da desvalorização para os preços finais", argumentou.

Bolsa.  A disparada das ações da Petrobras foi determinante para alavancar o Índice Bovespa em um dia de agenda pouco relevante para o mercado doméstico. O índice, que em 11% de sua composição representada pelos papéis da estatal petroleira, terminou a quarta-feira com alta significativa, de 1,58%, aos 84.265,49 pontos. Os negócios na B3 somaram R$ 13,9 bilhões.

Segundo relataram operadores do mercado, as ações da Petrobras foram alvo de compras pesadas por parte de investidores estrangeiros, o que levou os papéis a altas acima de 10%. Como pano de fundo esteve uma forte aceleração dos preços do petróleo no mercado internacional, em meio a especulações em torno da retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã. Além disso, ainda foi relevante para os papéis a repercussão do resultado financeiro trimestral acima das expectativas.

Com o petróleo subindo mais de 3% nos futuros de Nova York e Londres, Petrobras ON e PN terminaram o dia com altas de 10,02% e 8,16%, respectivamente. Somadas, as duas ações responderam por cerca de 27% do volume de negócios na Bolsa. O dia também foi de alta nas bolsas de Nova York, que igualmente tiveram ações específicas beneficiadas pela alta do petróleo.

"Por representarem um peso significativo no Ibovespa, as ações da Petrobras acabaram por contagiar outros papéis, que subiram no embalo do índice", disse um experiente operador, que se disse surpreso com tamanha movimentação dos papéis, que há tempos não ocorria.

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