Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Dólar fecha em R$ 3,11 e atinge menor nível em pouco mais de um mês

Ibovespa, que chegou a bater 73 mil pontos na máxima da manhã desta terça-feira, acabou invertendo o rumo e fechou estável

Denise Abarca e Niviane Magalhães, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2017 | 18h13

A suspeita sobre a delação da JBS anunciada na segunda-feira, 4, pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, gerou efeito importante nos mercados, colocando o dólar no nível de R$ 3,11 - menor patamar em pouco mais de um mês. O movimento deixou agentes mais otimistas em relação ao cenário econômico e político, o que levou o risco Brasil representado pelo CDS abaixo de 190 pontos.

As declarações de fatores "gravíssimos" nas gravações da JBS que envolveria membro da procuradoria, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e políticos foram traduzidas por analistas e pelo mercado como enfraquecimento de uma segunda denúncia da PGR contra Temer, que sairia do episódio com maior capital político para defender matérias de interesse no Congresso, inclusive a reforma da Previdência.

No mercado de juros, esse entendimento gerou efeito de baixa nas taxas de longo prazo durante todo o pregão, que teve volume robusto de negócios.

Já o Ibovespa, que chegou a bater 73 mil pontos na máxima da manhã desta terça-feira, 5, acabou invertendo o rumo e fechando estável, mas segurando os 72 mil pontos conquistados na véspera. Na hora do almoço, a bolsa começou a testar o território negativo e tanto o dólar como os juros reduziram a queda pontualmente por causa da operação da PF nomeada Tesouro Perdido, que encontrou malas de dinheiro em espécie durante buscas em um imóvel em Salvador que seria utilizado pelo ex-ministro Geddel Vieira Lima como um 'bunker'.

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Os agentes temem eventual respingo da investigação de Geddel sobre a figura de Temer, uma vez que ele é um dos homens de confiança do presidente. Os agentes também se valeram do assunto para justificar uma realização de lucro intraday na bolsa, que foi amparada ainda pelo sinal negativo em Nova York.

As bolsas em Wall Street tiveram reação tardia de busca por proteção contra o cenário geopolítico conturbado pela Coreia do Norte. Com isso as bolsas caíram e aumentou a demanda por Treasuries, iene e ouro. Já o petróleo saltou ante a ameaça do furacão Irma, que foi elevado para nível 5 hoje.

Câmbio. O dólar rompeu o importante patamar dos R$ 3,12 e fechou cotado aos R$ 3,1167. Segundo especialistas, isso reflete a melhora da percepção em relação ao cenário político e não apenas ao quadro econômico. 

"A queda do dólar foi um importante teste para ver o quanto o câmbio tinha de gordura com a parte política e o quanto tinha de gordura com a parte econômica", pontuou o diretor de câmbio do Banco Paulista, Tarcísio Rodrigues. Segundo ele, o dólar vinha numa tendência de baixa devido aos indicadores econômicos positivos e hoje mostrou força com o lado político, uma vez que há chance de retomada de confiança de parlamentares no governo. 

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Esta percepção "melhorada" fez com que o risco Brasil medido pelo contrato de swap de default de crédito (CDS, na sigla em inglês) de cinco anos recuasse para abaixo de 190 pontos base. Próximo ao fechamento do mercado, a pontuação estava em 188,640 pontos, queda de 1,36% em relação ao dia anterior.

De acordo com o economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, o CDS já vinha em trajetória de queda há 15 dias devido a melhora econômica, com destaque para o Produto Interno Bruto (PIB) surpreendente da semana passada. Além disso, "após o anúncio de ontem do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, o cenário político começa a ganhar mais força, uma vez que o presidente Michel Temer pode voltar a ter a tração parlamentar que tinha antes e seguir com a reforma da Previdência", disse o economista.

Especialistas, porém, destacam ser importante observar os próximos dias para ver como o governo reagirá a este novo cenário. "Este é o momento de o governo retornar e tentar fazer mais coisas antes de saírem novas denúncias ou delações", afirmou um gerente de mesa de derivativos. 

"O dólar pode até buscar um patamar ainda mais baixo se notarmos um avanço das reformas, no entanto, não podemos esquecer o risco no cenário internacional com os desdobramentos da Coreia do Norte", acrescentou o diretor do Banco Paulista. 

No início da tarde desta terça-feira, a moeda americana chegou a renovar máximas ante o real em meio a uma piora em Wall Street depois que a Coreia do Norte divulgou comunicado afirmando que irá responder "do nosso próprio jeito" a qualquer nova sanção que possa ser imposta ao país, após o último teste de míssil no domingo, considerado o mais forte já lançado pelo regime de Pyongyang. Com isso, a busca por ativos mais seguros - como iene e euro - se intensificou, levando a divisa dos EUA a recuar ante moedas fortes.

A busca por dólar em relação a moedas emergentes também aumentou. Porém, o viés de queda prevaleceu, uma vez que o petróleo terminou em alta de mais de 2% diante da recuperação da atividade de refinarias no Golfo do México e a aproximação do furacão Irma dos Estados Unidos. À medida em que as refinarias voltam a operar, os investidores de petróleo ficam mais tranquilos de que a demanda por óleo cru será recuperada.

No mercado à vista, o dólar terminou em baixa de 0,68%, aos R$ 3,1167. O giro financeiro somou US$ 1,38 bilhão. Na mínima, a moeda ficou em R$ 3,1126 (-0,81%) e, na máxima, aos R$ 3,1278 (-0,32%).

No mercado futuro, às 17h30, o dólar para outubro caía 0,81%, aos R$ 3,1270. O volume financeiro movimentado somava cerca de US$ 14,89 bilhões. Durante o pregão, a divisa oscilou de R$ 3,1225 (-0,95%) a R$ 3,1380 (-0,45%).

Juros. Com a aposta de queda da Selic em 1 ponto porcentual no encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) na quarta-feira, 6, bem precificada na curva a termo, o destaque no mercado de juros nesta terça-feira foram os vencimentos longos, que tiveram forte queda de taxas. O vetor principal foi a melhora na expectativa de aprovação das reformas, em especial a da Previdência, a partir da reviravolta no caso das delações de executivos da J&F após as revelações feitas ontem pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Além disso, há percepção positiva sobre as votações previstas para hoje no Congresso - Taxa de Longo Prazo (TLP) e mudança das metas fiscais.

O giro de contratos hoje foi expressivo e, ao final da sessão regular, as taxas de curto e médio prazos estavam perto dos ajustes de ontem e as demais, em franco declínio. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2018 (231.660 contratos), o que melhor reflete as expectativas para a Selic até o final do ano, fechou em 7,740%, de 7,760% no ajuste de ontem; a taxa do DI para janeiro de 2019 (533.315 contratos) caiu de 7,81% para 7,79%; e a do DI para janeiro de 2021 (266.705 contratos) fechou na mínima de 9,07%, de 9,20% ontem no ajuste. A do DI janeiro de 2025 (61.040 contratos) terminou em 10,01%, de 10,14%.

Os fatores domésticos acabaram minimizando o contágio da aversão ao risco que predominou no exterior, que derrubou as ações em Nova York e o rendimento dos Treasuries. A taxa da T-note de dez anos, às 16h40, recuava cerca de 10 pontos em relação a segunda-feira, para 2,068%. Segundo a agência estatal KCNA, da Coreia do Norte, o país irá responder "do nosso próprio jeito" a qualquer nova sanção aplicada pelos EUA, e os comentários do presidente americano, Donald Trump, sugerem que "ele está pedindo por uma guerra".

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Os contratos de curto e médio prazos terminaram perto dos ajustes. Com a aposta de corte da Selic em 1 ponto já no preço, o mercado aguarda o comunicado, que poderá dar pistas sobre a estratégia do Banco Central em relação aos próximos passos do ciclo de distensão monetária que, no entender dos investidores, se aproxima do fim.

Na quarta-feira, além do Copom, que só anuncia sua decisão após o fechamento dos negócios, o mercado deve repercutir o IPCA de agosto. As previsões coletadas pelo Projeções Broadcast vão de 0,22% a 0,47%, com mediana de 0,32%.

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