Lee Jae Won/Reuters - 7/2/201
Lee Jae Won/Reuters - 7/2/201

Dólar fecha a R$ 5, no menor valor desde 30 de junho; na mínima, moeda caiu a R$ 4,99

Foi a primeira vez desde julho que o dólar furou a 'barreira psicológica' de R$ 5 e operou abaixo da marca; alta da taxa de juros e valorização das commodities explicam resultado

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2022 | 11h20
Atualizado 23 de fevereiro de 2022 | 19h30

A entrada de investidores estrangeiros no Brasil, cortesia dos juros altos após sucessivos reajustes da taxa básica de juros, a Selic, somada a valorização das commodities, contribuíram para tirar o fôlego do dólar nesta quarta-feira, 23, com a moeda furando a "barreira psicológica" de R$ 5 pela primeira vez desde o começo de julho, a R$ 4,9946 na mínima do dia. Hoje, o dólar fechou em queda de 0,95%, a R$ 5,0042, no menor valor desde 30 de junho. Na contramão, a Bolsa brasileira (B3) cedeu 0,78%, aos 112.007,61 pontos.

Nos últimos quatro pregões, a moeda já acumula queda de 3,148%, levando a desvalorização em fevereiro a 5,69%. Com isso, o dólar apresenta um recuo de 10,25% em 2022, após fechar o ano passado com ganhos de 7,46%. O dólar operou em queda desde o começo da manhã, sob a influência do forte IPCA-15 de fevereiro, que deve exigir novas altas da Selic, atualmente em 10,75% ao ano, aumentando a atratividade do País.

Operadores também relataram nova onda de fluxo de recursos para ativos domésticos, movimento confirmado pelo Banco Central, que divulgou hoje fluxo cambial positivo em US$ 5,2 bilhões até 18 de fevereiro. O CEO da BGC Liquidez, Erminio Lucci, observa que a entrada forte de fluxo externo e o desempenho do real pegaram o mercado de surpresa neste início de ano.

Uma das explicações para a performance exuberante da divisa seria o fato de o BC brasileiro ter saído na frente de outros emergentes e realizado um aperto monetário intenso em período curto. "Vamos ter uma Selic acima de 12% em uma inflação de 5% ou 6% no ano que vem. Isso vai dar um juro real muito grande".

Uma vez mais, o real liderou os ganhos entre as divisas emergentes, com desempenho bem superior a pares como o peso mexicano e o colombiano. Lucci ressalta que a alta das commodities, de 13,5% entre a virada do ano e meados deste mês, tem favorecido as divisas emergentes em geral e responde, em parte, também pela apreciação da moeda brasileira.

Segundo o economista Lívio Ribeiro, pesquisador associado do FGV/Ibre, quando o preço das matérias-primas aumenta em dólar no mercado internacional, países exportadores de commodities recebem mais divisas pelas vendas externas, e a sua moeda se valoriza.

Além desses dois fatores, analistas afirmam que outros indicadores domésticos divulgados hoje deram força ao real. A arrecadação federal recorde de R$ 235,32 bilhões em janeiro (crescimento real de 18% na comparação anual) e números positivos do setor externo - aliados ao aparente abandono das PECs dos Combustíveis no Congresso - diminuem a percepção de risco e, por tabela, refreiam apostas em uma reversão súbita do fluxo de recursos estrangeiros.

Apesar desse cenário favorável, especialistas avaliam que a queda do dólar tem fôlego curto. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, diz que esse cenário parece não ser sustentável e que o câmbio não deve ficar nesse patamar ao longo do ano. “Há espaço para depreciação do real por causa dos riscos eleitorais que devem aparecer à frente.” José Augusto de Castro, presidente da AEB, lembra que as projeções do mercado ainda apontam para o câmbio a R$ 5,50 no fim deste ano.

No exterior, o índice DXY, que mede o dólar ante seis rivais, avançou 0,17%. O Wells Fargo avalia que os mercados financeiros precificaram hoje a possibilidade de um aperto agressivo dos juros por parte do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). O banco acredita que os dirigentes devem aumentar as taxas de juros cinco vezes este ano.

Bolsa

O mau humor do mercado brasileiro veio em sintonia com Wall Street: em Nova York, o Dow Jones caiu 1,38%, o S&P 500, 1,84%, e o Nasdaq, 2,57%. O foco dos investidores continua na tensa conjuntura geopolítica, diante dos novos desdobramentos em torno da crise no Leste Europeu. Segundo Edward Moya, analista da Oanda, os mercados acionários começaram a desistir de ganhos após relatos de que os EUA acreditam que a Rússia invadirá a Ucrânia em 48 horas.

Segundo a Reuters, as forças russas "estão tão prontas quanto podem estar", com 80% em posições avançadas. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, reuniu cerca de 100% das forças que os EUA acreditavam que ele colocaria em posição para a invasão da Ucrânia, informou um oficial de defesa americano. Enquanto isso, o presidente americano Joe Biden, confirmou hoje que os EUA vão impor sanções à empresa responsável pelo gasoduto Nord Stream 2 - que liga a Ucrânia à Rússia.

Hoje, o petróleo continuou a refletir a instabilidade no Leste Europeu, com os contratos fechando apenas com ganho marginal. Assim, Petrobras ON perdeu o fôlego e registrou alta de 0,03% e a PN, de 1,42%. Na contramão, os setores de mineração e siderurgia puxaram o Ibovespa para baixo hoje, com Vale em queda de 1,05%, CSN, de 4,86% e Gerdau, de 3,35%.

Na ponta positiva do índice, destaque para salto de Sul América, em alta de 25,16%, e de Rede D'Or, de 8,82%, após a Rede D'Or anunciar que vai incorporar a Sul América Seguros. Já Eletrobras ON subiu 2,14%, após os acionistas aprovarem o plano de privatização da estatal. /ANTONIO PEREZ, LUÍS EDUARDO LEAL E MAIARA SANTIAGO

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