Dólar mais caro não afetará o Natal

Maioria dos varejistas acertou a compra de produtos importados antes da recente alta da moeda americana, que subiu 2,6% só em novembro

MÁRCIA DE CHIARA, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2012 | 02h07

Pelo menos até o Natal, o consumidor estará salvo dos aumentos de preços dos produtos importados em razão da alta do dólar. Empenhados em cumprir metas no melhor período de vendas do ano, a maioria dos lojistas pretende manter os preços dos importados.

Jogam a favor dessa tendência o mercado mais competitivo e o fato de as importações para o fim do ano terem sido feitas no primeiro semestre, quando o câmbio estava num nível menor do que o atual.

Na sexta-feira, o dólar fechou cotado a R$ 2,0830, depois de ter atingido R$ 2,1170 e o Banco Central ter feito um leilão de moeda estrangeira para baixar a cotação. Neste mês, o dólar já subiu 2,61%. No ano, 11,45%.

"A alta do dólar não vai ter impacto nos preços neste Natal", afirmou o diretor de Global Sourcing do Grupo Pão de Açúcar, Sandro Benelli. Ele conta que as importações da rede foram feitas com muita antecedência, quando a cotação do câmbio era mais baixa. As compras de itens não alimentícios, cujo preço é fechado com a cotação do dia do pedido, como brinquedos e enfeites, foram fechadas pela empresa um ano atrás.

No caso de alimentos, que poderiam ser afetados porque vale a cotação do dólar no dia do desembarque da mercadoria, a totalidade dos itens importados pelo grupo já está "em casa".

Benelli conta que a participação dos importados no total dos itens natalinos da empresa é de 5% neste ano, a mesma fatia de 2011. Ele não revela quanto ampliou as importações em relação ao ano passado, mas observa que os volumes acompanharam as expectativas favoráveis de vendas da empresa para o Natal como um todo. De toda forma, o diretor observa que as barreiras comerciais impostas pelo governo e a morosidade na liberação das importações inibiram o avanço das compras externas.

Gustavo Dedivitis, presidente da Associação Brasileira de Importadores, Produtores e Distribuidores de Bens de Consumo (Abcon), conta que os importadores reduziram as compras de Natal por causa da lentidão na liberação dos produtos, em razão da operação contra fraudes aduaneiras, do processo antidumping e do dólar mais caro.

Ele também não acredita que o aumento da cotação do dólar seja repassada para os preços ao consumidor. "Nossos importadores, que são tradicionais e não de ocasião, costumam usar hedge (seguro de câmbio) para que não exista aumento de preço no ponto de venda", disse o presidente da Abcon.

"Este ano está mais difícil e o crescimento das vendas está abaixo das expectativas iniciais", conta Adolar Hermann, presidente da importadora de vinhos Decanter. A empresa projetava crescimento de 18% a 20% este ano e, até agora, está ampliando as vendas em 8% sobre 2011. "Não está mau", pondera o empresário, lembrando que, quando há reajuste de preço, perde-se mercado. Por isso, a empresa pretende manter os preços dos vinhos importados e ganhar nos volumes vendidos. Mas ele ressalva que, se o câmbio se consolidar num novo nível, as tabelas de preços poderão ser revistas para cima a partir de março.

A alta do câmbio não reduziu, por enquanto, as encomendas de importados para o primeiro trimestre do ano que vem, disse Alfredo de Goeye, presidente da Sertrading, uma das maiores companhias de comércio exterior, que tem como clientes grandes redes varejistas de artigos de vestuário, utilidades domésticas, alimentos e cosméticos. "Os volumes não foram impactados, além da queda normal que ocorre no período", disse.

Para o Natal, ele relata que as compras feitas para seus clientes cresceram entre 8% e 10% neste ano, em comparação com as de 2011. Os pedidos foram fechados na virada ano e os produtos desembarcados no mês passado.

Crise. Já a Casa Santa Luzia, supermercado especializado em alimentos e bebidas sofisticadas, decidiu reajustar entre 3% a 5% os preços dos itens importados por causa do dólar mais alto. Jorge da Conceição Lopes, diretor comercial da empresa, calcula que, se os preços em dólar dos itens importados não tivessem registrado queda por causa da crise internacional, a alta dos preços em reais teria de ser muito maior, entre 10% 12%.

"Nozes e panetones importados tiveram os preços em dólar reduzidos", conta o diretor. Ele ressalta que a participação dos importados no mix de vendas da empresa, que foi de 55% no ano passado, manteve-se este ano. "As vendas estão iguais às do ano passado e, se conseguirmos repetir o desempenho do Natal de 2011, será muito bom."

Além de reduzir os preços em dólar, a crise internacional inverteu a mão nas negociações com os fornecedores. Lopes conta que, no passado, eram os compradores que procuravam os fornecedores estrangeiros. "Hoje são eles que nos procuram e, em alguns itens, conseguimos descontos de 10% em dólar", conta o empresário.

Por causa da crise, novos países passaram a integrar a lista de fornecedores dos importadores por oferecem condições de negociação mais vantajosas. Neste fim de ano, a Casa Santa Luzia, por exemplo, começou a importar chocolates e biscoitos da Áustria.

O Grupo Pão de Açúcar trouxe queijos da Holanda e vinhos da Austrália e Nova Zelândia. A importadora de vinhos Decanter incluiu a Eslovênia, a Croácia, a Hungria e a Grécia na lista de países fornecedores.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.