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Dólar nervosinho

O recuo recente do dólar frente ao real, quando a moeda americana chegou a bater em R$ 3,43, foi atribuído a dois fatores principais: o noticiário político no Brasil em antecipação ao afastamento da presidente Dilma Rousseff e a percepção de que o Federal Reserve (Fed) – o banco central dos EUA – não iria elevar os juros tão cedo. Juros americanos mais altos atraem fluxo de capital para aplicações em dólar, o que fortalece a moeda americana e enfraquece as outras, incluindo o real.

Fábio Alves, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2016 | 05h00

Nos últimos dias, a retórica mais agressiva de alguns diretores do Fed chacoalhou investidores que haviam assumido uma postura exageradamente leniente quanto ao ritmo de aperto monetário. A mensagem também serve de alerta ao mercado brasileiro: a pressão externa, particularmente vinda das decisões do Fed, deve começar a influenciar o câmbio no Brasil com maior peso no curto prazo. O dólar voltará a ficar mais nervosinho.

A calmaria em relação à trajetória do aperto monetário nos EUA baseava-se, em grande parte, no temor ventilado em atas e comunicados do Fed e em declarações públicas de seus diretores de que riscos existentes na economia global, em especial a desaceleração da China, pudessem abortar a recuperação da atividade econômica americana. Assim, o BC americano passou a adotar maior cautelosa antes de sinalizar que uma nova alta dos juros estaria próxima.

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Indicadores de inflação e vendas no varejo nos EUA dão força à elevação dos juros
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Os contratos futuros no mercado americano chegaram a embutir a aposta de que a próxima elevação dos juros só aconteceria em maio de 2017. O Fed torceu o nariz e partiu para o contra-ataque para desfazer essa complacência dos investidores, até porque oficialmente a projeção da instituição é de que haverá duas altas de juros neste ano. Nos últimos dias, três diretores regionais do Fed, que não têm direito a voto nas reuniões de política monetária em 2016, coordenaram a ofensiva. Os presidentes regionais de Atlanta, Dallas e São Francisco soaram o alerta de que uma alta de juros pode estar bem mais próxima do que os investidores imaginam. Dennis Lockhart (de Atlanta) chegou a dizer que uma elevação na reunião marcada para 14 e 15 de junho é uma possibilidade. Os indicadores mais recentes de inflação e de vendas no varejo deram força aos argumentos deles.

Como esses três dirigentes regionais do Fed não votam neste ano, os investidores aguardam as declarações da presidente da instituição, Janet Yellen, ou de diretores menos propensos a elevar juros, como o chefe regional do Fed de Nova York, William Dudley. Até o momento, Yellen e Dudley não desautorizaram publicamente seus colegas sem voto, talvez por não quererem endossar a postura mais leniente que o mercado vinha adotando. Hoje, por exemplo, Dudley participa de evento para discursar sobre a economia americana. Se ele corroborar, mesmo em parte, os argumentos daqueles três dirigentes mais agressivos em relação ao aperto monetário, o impacto será grande sobre contratos futuros de juros e dólar.

Uma amostra disso foi a divulgação ontem da ata da reunião de política monetária do Fed em abril, destacando a diminuição dos riscos globais e uma melhora dos indicadores de atividade no segundo trimestre nos EUA. Resultado: os investidores elevaram a probabilidade de alta dos juros em dezembro para 80%; para setembro, a aposta subiu para 65%. E para a reunião de junho, a chance passou de 19% para 34%. Mas há investidor que considera que o risco de alta de juros em junho é agora de 50%. Se essa aposta se disseminar, há quem acredite que, no mercado brasileiro, o dólar siga rapidamente em direção a R$ 3,65.

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